'O Ornitólogo' devolve magia reservada a produtos escapistas

Paul Hamy interpreta Fernando, ornitólogo em busca de um pássaro raro em Portugal
Paul Hamy interpreta Fernando, ornitólogo em busca de um pássaro raro em Portugal - Divulgação

Pode-se dizer qualquer coisa a respeito do diretor português João Pedro Rodrigues, menos que ele seja incapaz de nos surpreender.

Em longas como "O Fantasma" (2000) e "Morrer Como um Homem" (2009), soube contornar uma certa inexperiência (no primeiro caso) e os tiques para festivais (no segundo) e realizar peças sólidas de inquietação e irreverência.

Em seu quinto longa de ficção, "O Ornitólogo", produção luso-franco-brasileira, Rodrigues nos oferece algo menos explosivo, mas ao mesmo tempo faz seu filme mais enigmático.

É uma viagem pelo espírito de um homem solitário, perdido em uma natureza que lhe parece muito mais estranha do que verdadeiramente hostil.

Fernando (Paul Hamy) é um ornitólogo que vai procurar um pássaro raro numa região inabitada do rio Douro, no norte de Portugal. Ele mantém um frágil contato com alguém que lhe espera pacientemente no que se entende por civilização.

Durante um passeio de barco pelo rio, Fernando é apanhado por uma correnteza e desaparece. A partir desse ponto, o filme perde o chão, no bom sentido. Tudo parece existir em alguma dimensão secreta.

O contato profundo e intenso com a natureza aguça os sentidos de uma maneira que desconhecemos. Fernando testemunha rituais estranhos e ouve sons que ele não consegue entender.

O filme é todo rodado no formato scope (a tela super-retangular), que favorece o trabalho com a imensidão natural curiosamente, muitos diretores em Portugal filmam como se o país tivesse dimensões continentais.

O próprio diretor faz uma pequena e misteriosa participação, que servirá também para colocar o filme em outro terreno: o da discussão artística. O que temos, afinal? Um alter ego, um duplo ou uma reencarnação?

"O Ornitólogo" nos devolve um pouco da magia que atualmente parece destinada unicamente a produtos escapistas e pode ensinar-nos a aproximar novamente nosso cinema de um entendimento mais profundo do que é estar no mundo.

É um antídoto contra a prisão exclusivamente sociologizante em que nos encontramos.

Avaliação: muito bom

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