'O Cidadão Ilustre' não é tão ilustre quanto outros filmes argentinos



Se existe um ensinamento a reter de "O Cidadão Ilustre", ele é: nunca faça parte do júri de eventos artísticos. Só serve para arrumar inimigos.

Isso o personagem do célebre escritor Daniel Mantovani descobrirá no exato momento em que o filme tem uma dramática virada. Até então tudo em sua vida foi glória: livros famosos, prêmio Nobel, vida confortável em Barcelona etc.

Mesmo depois, quando decide voltar a Salas, a pequena cidade argentina onde nasceu e cresceu, tudo vai de vento em popa: desfile em carro aberto, aplausos, reencontros... Até aí, já descobrimos que Salas é um buraco infernal: a tal cidade pequena, pacata, medíocre, hipócrita. Foi sobre isso, aliás, que Mantovani escreveu seus livros.

Nota-se já uma qualidade de quase todo filme argentino, mesmo os medianos: a de mostrar fachadas. Existe uma amarga precisão na maneira como essas casas –e eventualmente seus ocupantes– são mostradas. A mediocridade está na cara.

Oscar Martínez vive um escritor argentino que volta à terra natal em 'O Cidadão Ilustre' *** ****
Oscar Martínez vive um escritor argentino que volta à terra natal em 'O Cidadão Ilustre' - Divulgação

Essa não é a única virtude de "O Cidadão Ilustre", que ganhou um prêmio especial do júri para os diretores e um Leão de Prata para o ator principal em Veneza 2016. Premiações, talvez, um tanto benevolentes: o cinema argentino recente tem mostrado filmes mais, digamos, ilustres.

Ainda assim, a progressão da trama é correta e a direção criou um tom conveniente para o escritor (um desses nobeis muito mais enfatuados do que interessantes), que a rigor volta à cidade natal apenas para melhor desprezá-la. Os locais, de resto, notam isso muito bem.

O primeiro sinal vem da jovem que o inquire durante sua primeira palestra na cidade, onde ela comprova que se trata de um homem tortuoso e de opiniões volúveis. Com efeito: ele adora ser adorado pela cidade que odeia. Ao mesmo tempo, precisa desesperadamente que ela o odeie para que sua obra saia do atoleiro.

Se no final o escritor coloca em questão o que é real e o que é imaginário numa obra de ficção, é para que "O Cidadão Ilustre" melhor ilustre o caráter medíocre do escritor. Ao mesmo tempo, porém, assinala o seu próprio limite: uma inegável propensão à banalidade simpática. 

Avaliação: regular 
Veja salas e horários de exibição.

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