Walter Carvalho, diretor de "Budapeste", fala de relação com Chico Buarque

Radicado no Rio, o paraibano Walter Carvalho, 62, tem larga experiência como diretor de fotografia em filmes como "Com Licença, Eu Vou à Luta" (1986), de Lui Farias, "Central do Brasil" (1998), de Walter Salles, e "Santiago" (2007), de João Moreira Salles.

"Budapeste", no entanto, é apenas sua segunda incursão como diretor, a primeira solo (na estreia, em "Cazuza, o Tempo Não Para", codirigiu com Sandra Werneck). Ao Guia, Carvalho falou sobre a relação com Chico Buarque e as dificuldades com a língua e o frio húngaros.

- Crédito: Divulgação

Guia - Em "Cazuza, o Tempo Não Para", você codirigiu com Sandra Werneck. Agora, estreia sozinho na direção de ficção. Como foi a experiência?
Walter Carvalho - Uma vez perguntaram para o Chico Buarque como foi fazer 60 anos. Ele respondeu: "Até agora, não senti nada, não". Também não senti nada. Fotografei muitos filmes com diretores de diversas origens, inclusive estrangeiros. E a proximidade do diretor de fotografia com o diretor é muito grande. Isso me deu certa familiaridade com atores, sets e técnicos.

Guia - Como foram as filmagens na capital húngara?
Carvalho - Você reserva o lugar que quer filmar e paga para os administradores da cidade. O único dia em que tive problema foi quando quis filmar numa rua e, num determinado lugar, tinha três carros exatamente no espaço reservado para a cena. Ligamos para a administração. Em meia hora, chegou um reboque e retirou os carros. A coisa que mais me incomodou foi o frio. Sou paraibano e friorento. Na madrugada, fazia -4ºC. Levei uma semana para descobrir a roupa adequada, que esquentasse e me desse mobilidade.

Guia - E a dificuldade com a língua? "A única que o diabo respeita", segundo a obra.
Carvalho - Foi grande. Mas foi por meio dela que se criou uma relação interessante. No set, o Rafael Salgado [assistente de direção] dava as ordens de comando em inglês, e o assistente húngaro repetia em sua língua. Na segunda semana, o Rafa arriscava as ordens em húngaro, e os húngaros começaram a tentar falar em português, o que criou uma proximidade maravilhosa da equipe. Os técnicos dos dois países aprendiam palavrões das duas línguas.

Guia - Chico Buarque fez alguma sugestão sobre a adaptação do livro?
Carvalho - Tive alguns encontros com ele no início. Sempre que tinha dúvida, ligava para ele. Chico nunca falou para fazer ou não fazer algo. Dava apenas a opinião, tranquilo. "Você já conhece o livro mais do que eu. Tem coisa que nem lembro mais", falava. Dentro da sua generosidade, foi absolutamente brilhante e companheiro.

Guia - O que ele achou da música "Feijoada Completa" em húngaro?
Carvalho - Dei para ele o CD com os caras cantando em húngaro. Ele achou incrível. Ele foi a primeira pessoa que viu o filme. Ficou sensibilizado com a questão da estátua do Lênin, passagem que não tem no romance. Adorou.

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