Chefs, artistas e empresários dizem o que gostariam de ver na cultura de SP no futuro

Nos últimos 20 anos, desde a primeira publicação do "Guia Folha", certamente a fervilhante vida cultural da cidade mudou.

Vieram, por exemplo, os cinemas multiplex, a tecnologia 3D, os sistemas de som ultrapotentes. Os cartões de crédito, antes raridade, hoje são a norma de pagamento nos restaurantes, que também viram modas gastronômicas irem e virem.

Por outro lado, artes como o teatro e espaços como os museus talvez não tenham se alterado tanto assim.

Nos 20 anos do suplemento, o "Guia" convidou chefs, artistas e empresários de destaque no setor na cidade —e que tiveram espaço nas nossas páginas para olhar para a frente e pensar o futuro da cena cultural paulistana.

Nomes como o chef Alex Atala, o diretor Gerald Thomas, o maestro João Maurício Galindo e a atriz Helena Ignez disseram o que gostariam que existisse na cidade e para onde imaginam que sua área de atuação irá.


"Gostaria que as pessoas SAÍSSEM do Facebook e do Instagram (eu, inclusive) e voltassem a FAZER as coisas"
GERALD THOMAS, diretor teatral

Gerald Thomas, diretor teatral
Gerald Thomas, diretor teatral - Bruno Poletti/Folhapress



"Eu sonho com mais espaços culturais para as artes, para oficinas e poesia, além do Sesc. E com mais investimentos nos CEUs"
ASSUCENA ASSUCENA, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, capa do "Guia" sobre a questão de gênero na música, em 2016


"[Faltam] Empreendimentos 24 horas de diversos segmentos. A cidade que nunca dorme está indo para a cama muito cedo"
KAREN CUNHA, curadora e diretora de grandes eventos, como o SP Na Rua


"Gostaria que a cidade continuasse a ter infernos: áreas de prostituição, sarjetas, drive-ins baratos no fundo da zona leste. Gosto dos lugares onde se respira certa densidade de um desejo enlouquecido"
CONTARDO CALLIGARIS, psicanalista e colunista da Folha


"Acredito que a tecnologia vai aumentar o acesso aos acervos de museus e galerias. As experiências virtuais estarão arraigadas nos hábitos culturais"
FERNANDA FEITOSA, fundadora e diretora da feira SP-Arte, que foi capa do "Guia" em 2014


"[Espero] Empreendimentos mais afetivos, pautados menos pela relação de consumo e mais pelas relações humanas"
RUBENS AMATTO, curador e cofundador da Casa de Francisca, que apareceu na capa do "Guia" em 2016


"Eu espero que a cultura tenha mais negros, mais minas, mais cultura na periferia para crianças, mais espaços para as crianças"
MC SOFFIA, rapper

A rapper MC Soffia
A rapper MC Soffia - Greg Salibian/Folhapress

"Sempre sonhei com uma orquestra sinfônica itinerante. Mapear galpões, igrejas e clubes e montar a orquestra lá"
JOÃO MAURÍCIO GALINDO, diretor artístico e regente titular da Orquestra Jazz Sinfônica


"[Gostaria de] Mais cinemas de rua espalhados pela cidade"
ANDRÉ STURM, secretário de Cultura do município


"No futuro, restaurantes não terão mais menus, cheios de pratos com produtos que não são da estação. Os frequentadores aceitarão comer o que está fresco e disponível"
IVAN RALSTON, chef do Tuju


"Acredito que haverá um interesse maior em práticas ancestrais, da roda de violão aos grupos vocais do quarteirão"
TULIPA RUIZ, cantora

Tulipa Ruiz
A cantora Tulipa Ruiz - Greg Salibian/Folhapress

"A noite tem um caráter underground, sempre teve e sempre vai ter. Noite muito patrulhada ou higienizada vira o que virou a de NY: tal hora acaba tudo, não pode beber na rua"
GLAUCIA ++, DJ e organizadora da festa Cio


"Eu torço para que São Paulo volte a ser aquela efervescência de 20, 30 anos atrás, quando comecei a fazer teatro. Tudo fecha cedo, está chato sair"
MARCELO MÉDICI, ator


"Precisamos de mais parque Augusta, de praça Roosevelt. Tem que ter mais gente andando a pé, de bicicleta. A cultura daqui a 20 anos é muito mais gente nas ruas!"
TATÁ AEROPLANO, músico


"Acho que daqui a 20 anos teremos um mercado mais forte do faça você mesmo. O indivíduo é agente mais importante do que as grandes corporações"
BEBEL ABREU, sócia da Mandacaru, que produz eventos como a exposição "Macanudismo"


"Seria bonito se houvesse planejamento para que daqui a 20 anos existam mais espaços culturais abertos a todo o público e gratuitos. E planejamento que não mude com a política, que não importe se o governo é de esquerda ou direita"

PAOLA CAROSELLA, chef 

SAO PAULO - SP - BRASIL, 28-05-2015, 10h20: PAOLA CAROSELLA. Retrato da chef Paola Carosella, feito no cenario do programa Masterchef, da rede Bandeirantes. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress, ILUSTRADA
A chef Paola Carosella - Adriano Vizoni/Folhapress

"Gostaria que mercados de ingredientes, como o da Cantareira e o de Pinheiros, crescessem e se espalhassem"
ALEX ATALA, chef


"[Queria] Um (ou vários) aparelho cultural itinerante que levasse música de qualidade, cinema, teatro, poesia, para a periferia. Algo que promovesse troca e não imposição"
ANDRÉ BANDIM, dono do bar Mandíbula


"Que a cultura seja compreendida não como algo acessório, mas como um meio indispensável para a educação —no sentido amplo da palavra— do homem"
ANTONIO NÓBREGA, artista e músico

O multiartista Antonio Nóbrega
O multiartista Antonio Nóbrega - Silvia Machado/Divulgação



"Gostaria que o centro se tornasse um grande hub cultural, não só comercial e econômico. Para que as pessoas o frequentem à noite, circulem, desfrutem de sua arquitetura, sua beleza, seus espaços"
DANILO SANTOS DE MIRANDA, diretor do Sesc-SP


"As entradas dos museus deveriam ser gratuitas aos domingos. Com isso, se transformariam numa extensão da rua"
ELIANA FINKELSTEIN, dona da galeria Vermelho


"As minorias assumirão de forma polifônica o cenário da cidade. Polifônica e musical. A cidade estará colorida por grafites, feitos por uma renovação constante de artistas públicos"
HELENA IGNEZ, atriz e diretora


"Cada vez mais produções feitas nas periferias, para as periferias. E que haja mais interesse e deslocamento inverso, de quem está nos centros para as periferias"
MC LINN DA QUEBRADA, cantora e performer

MC Linn da Quebrada, cantora e performer
MC Linn da Quebrada, cantora e performer - Vivi Bacco/Divulgação

"Quis tanto um tipo de empreendimento que decidi criá-lo. Serão vários espaços como barbearia, estúdio de tatuagem, livraria, loja de vinil etc. A ideia é que os espaços sejam rotativos, sempre com novas experiências culturais para os usuários"
RENATO RATIER, DJ e dono do clube D-Edge


"[Gostaria de mais] Parques, lugares públicos e rios despoluídos e lugares 24 horas com segurança de se andar pela cidade sem medo"
TIBIRA, dono do Central Caos


"Contamos com cantores que trabalham por um preço relativamente baixo e moram por aqui. Um empreendimento da prefeitura poderia simplesmente levar esses artistas (Luiz Tatit, Arrigo Barnabé, Ná Ozzetti e tantos mais) aos palcos e a escolas da periferia, colaborando para desenvolver outra espécie de homem"
TOM ZÉ, músico


"A Semana de Arte Moderna de 1922, a antropofagia de 1928, a Tropicália de 1967 ressurgiram espontaneamente no Carnaval das multidões nos blocos paulistas de 2017. Nos meus 80 anos de vida, tenho a certeza de que o empreendimento no entorno do Teatro Oficina que chamamos de AnhangaBaú da Feliz Cidade irá trazer uma riqueza cultural inédita em Sampa"
ZÉ CELSO, diretor do Teatro Oficina

Zé Celso, ator, diretor e fundador do Teatro Oficina
Zé Celso, ator, diretor e criador do Teatro Oficina - Bruno Poletti/Folhapress

"Eu imagino que haverá ambientes como o da Cinemateca, que vão propor um aspecto museológico para as exibições —ambientes que vão ser raros, realmente tratados como museus"
LEANDRO PARDÍ, coordenador de difusão de filmes e programação da Cinemateca Brasileira 


"A interação em casas noturnas será muito maior, produção artística e público em mútua e feliz sintonia. Talvez poderemos perder alguns hábitos de aproximação que são legais, mas faz parte do jogo virtual"
RONALDO RINALDI, DJ e proprietário da Blitz Haus, Espaço Desmanche e Tex Redneck Bar


"[Gostaríamos de] Mais centros culturais! Que abriguem iniciativas sociais e que proponham mudanças. E, principalmente, que não tenham tantas amarras para a aprovação e o apoio de projetos. O acesso à cultura e à informação é o único caminho para uma cidade mais humana"
CLAUDIA KIEVEL e GLADYS TCHOPORT, idealizadoras da feira Jardim Secreto


"[Gostaria que existissem] mais pequenas lojas, pequenos comércios, para que as pessoas possam evitar frequentar grandes centros comerciais. Restaurantes [familiares], lojas de produtos naturais, que sejam de fácil acesso e que atendam a necessidade de produtos saudáveis e da busca de sabores"
ÉRICK JACQUIN, chef 

SAO PAULO, SP, 02.05.2016: Erick Jacquin, chef - Festa de lancamento do Guia Michelin Rio de Janeiro e Sao Paulo 2016. (Foto: Bruno Poletti/Folhapress, FSP-MONICA BERGAMO) ***EXCLUSIVO FOLHA***
O chef Érick Jacquin - Bruno Poletti/Folhapress

"Espero que daqui a 20 anos nós possamos contar com uma gestão que entenda que a cultura é a base de tudo e que ela é a ferramenta mais potente para transformar de fato uma sociedade."
MEL DUARTE, poeta


"Hoje vemos a cultura de forma muito mais ampla e menos elitizada do que 20 anos atrás. Espero que no futuro estejamos mais abertos às novas manifestações culturais. Faltam iniciativas que integrem mais a geografia da cidade, sua política e o entretenimento"
MANCHA LEONEL, músico e produtor


"São Paulo precisa ganhar força cada vez mais nos empreendimentos que incentivem a mobilidade a pé, o que constrói uma cidade mais humana e afável de se viver. Parques e praças são promotores de sociabilidade"
RODRIGO GUIMA, "social artist"


"Gostaria de ver ações independentes ocupando a cidade de modo digno, eventos na rua, gestos para tornar a cidade um território verdadeiramente público. Praças e parques ocupados. Para nós, que vivemos no centro da cidade, fica claro que nenhum empreendimento isolado daria conta da situação."

MARIA MONTEIRO, sócia-diretora da Sé Galeria

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