Vladimir Brichta estreia "Hamelin" e diz que teatro afasta as pessoas

Depois de interpretar um contador frustrado no musical "Os Produtores", Vladimir Brichta volta aos palcos paulistanos nesta sexta-feira (2), às 19h30. Desta vez, em uma empreitada de recursos mais modestos: "Hamelin" estreia no Centro Cultural Banco do Brasil (região central), sem recursos de luz e cenário. "É um prazer enorme ter a responsabilidade de, junto do resto do elenco, fazer com que eu consiga ir tão longe só com a palavra", afirma o ator.

- Crédito: Silvana Marques/Divulgação

A peça também está distante do tom de comédia do musical. "Hamelin" --escrita em 2005 pelo espanhol Juan Mayorga, que levou o prêmio Max de Melhor Autor Teatral pelo texto-- apresenta um juiz, interpretado por Brichta, que se vê diante de um suposto caso de pedofilia. A fim de cometer um ato heróico, o homem se sente motivado a prender o criminoso. Mas, por outro lado, é incapaz de manter uma relação afetuosa com a esposa e o próprio filho. "Uma coisa valiosa que esse espetáculo tem são as contradições", completa Vladimir.

Em entrevista ao Guia da Folha Online, o ator falou sobre a estreia e sobre as dificuldades de fazer teatro no Brasil.

Folha Online - Sobre o que é o espetáculo e como surgiu a oportunidade de encená-lo?
Vladimir Brichta - "Hamelin" tem título inspirado livremente no "Flautista de Hamelin", em que um homem livra-se dos ratos de uma cidade e, em troca, deveria ganhar dinheiro. Mas não é pago, e captura as crianças. Na peça, o juiz começa a investigar o crime para colocar o criminoso na cadeia. Mas, à medida que se aprofunda no caso, descobre que, além do pedófilo, há um envolvimento da família do abusado, que é humilde, de uma classe social em que as leis e a moral são outras. É uma dramaturgia muito inteligente. Apesar de ser um tema pesado, tem dinâmica e lembra o cinema, pelos cortes que são feitos. E tudo é em cima da palavra, sem luz e sem cenário.

Folha Online - Você optou por esse texto premiado, que parece ser complexo, e, por outro lado, escolhe também projetos de maior apelo popular, como o filme "A Mulher Invisível" e o musical "Os Produtores". Como transita entre trabalhos tão diferentes?
Vladimir - Eu me identifico muito com a pluralidade. Não me contentaria em fazer uma só coisa. Um espetáculo como esse me remete a peças que fiz no começo da carreira, como "Calígula", do Camus, que apelavam mais para a questão da condição humana. Isso estava um pouco distante de mim nos últimos 3 anos de carreira. Neste momento, eu tenho um desejo enorme de ir além do riso; queria resgatar uma possibilidade de comunicação através de espetáculos mais densos, estava saudoso de abordar de maneira mais humana e mais complexa, menos arquitetada no que a comédia exige.

- Crédito: João Miguel Júnior/TV Globo

Folha Online - Como ator conhecido, você enfrenta dificuldades para fazer teatro?
Vladimir - Sem dúvida. Mas percebo que há uma diferença com relação a quem não é conhecido. Eventualmente quem é conhecido tem um olhar mais atencioso por parte de investidores, mas também não transforma a produção numa coisa fácil. A gente tem um problema sério, porque o teatro se torna cada vez mais desinteressante, afasta as pessoas. E o principal motivo é a falta de informação e de contato. Eu sou a favor de aula de teatro obrigatória em escola pública, porque o teatro tem um potencial de transformação fortíssimo. Além disso, as pessoas teriam o teatro como algo próximo. Do contrário, a pessoa iria descobrir o teatro em que momento da vida? Claro que tem também o valor do ingresso. Se você diminui o preço, o público aumenta, mas não é só esse o problema.

Folha Online - E, ainda que o ingresso seja mais caro, você não acha que uma peça como "Os Produtores" atraia mais público do que "Hamelin"?
Vladimir - Sem dúvida, e não por minha causa. Tinha Miguel Falabella, que é talvez um dos artistas de maior apelo popular no Brasil, enquanto "Hamelin" é uma incógnita. Minha imagem neste momento está associada à comédia, a trabalhos mais populares e de repente eu vou apresentar um espetáculo no CCBB. É difícil saber o que acontecerá, mas eu jamais me privaria, como artista, de fazer algo que eu julgue relevante, em função de uma expectativa que se criou ao meu redor.

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