'Guerra Fria' retrata romance em meio a contexto político de autoritarismo e violência

Pré-indicado ao Oscar, longa narra história de amor entre cantora e pianista no fim dos anos 1940

Lúcia Monteiro
São Paulo

Durante uma caminhada idílica que acaba em desentendimento, o casal se separa: ele continua o percurso no campo enquanto ela entra, de roupa, num lago. Num plano aberto, observamos a superfície prateada da água ao longe, onde o corpo dela desaparece, submerso, deixando ver sua cabeça, num lance entre o sublime e o cômico. Se fosse apenas por essa imagem, “Guerra Fria” já valeria a pena.

Diretor de “Ida”, que levou em 2015 o Oscar de melhor filme estrangeiro, o polonês Pawel Pawlikowski dedica seu novo longa aos pais, fonte de inspiração para a história da cantora Zula (Joanna Kulig) e do pianista Wiktor (Tomasz Kot), feita de amor e de desencontros a partir do final dos anos 1940.

Depois de percorrer a Polônia gravando canções populares, Wiktor vai formar uma companhia de dança e música, Mazurka. Em meio à legião de camponeses que se candidatam a uma vaga, ele é arrebatado por ela. 

Poderia ser o início de um romance convencional, não fosse o autoritarismo e a violência do contexto político. Aos poucos, a companhia estatal ganha prestígio em outros países do bloco comunista, e às atrações tradicionais soma-se um repertório de propaganda que incensa líderes soviéticos.

Há um plano de fuga comum, mas ele acaba indo sozinho a Paris. A trilha sonora ganha, então, cores jazzísticas. Além de tocar em bares, ele faz gravações para cinema —a sequência de sonorização de um filme italiano é outra joia.

Rodado em preto e branco, “Guerra Fria” tem mise-en-scène e fotografia primorosas. Premiado como melhor direção em Cannes, o filme encanta com sofisticadas cenas de dança e música, trazendo uma melancolia de fundo da qual não é possível escapar.


Veja salas e horários.

 

Premiados em cartaz na Mostra

Berlim
"Não me Toque", de Adina Pintilie (Urso de Ouro)

"Retablo", de Alvaro Delgado Aparicio (Urso de Cristal)

"O Rosto", de Malgorzata Szumowska (Grande Prêmio do Júri)

Cannes
"Assunto de Família", de Hirokazu Kore-eda (Palma de Ouro)

"Capernaum", de Nadine Labaki (prêmio do júri)

"Infiltrado na Klan", de Spike Lee (Grande Prêmio do Júri)

"3 Faces", de Jafar Panahi (melhor roteiro)

"Guerra Fria", de Pawel Pawlikowski (melhor direção)

Veneza
"Roma", de Alfonso Cuarón (Leão de Ouro)

Sundance
"O Mau Exemplo de Cameron Post", de Desiree Akhavan (Grande Prêmio do Júri)

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