Protagonizado por mulheres, 'Sofia' traça perspectiva de classe em país árabe

Longa de estreia da cineasta marroquina Meryem BenmBarek está em cartaz na 42ª Mostra de Cinema

Francesca Angiolillo
São Paulo

Na cena que abre “Sofia”, a personagem-título não está em quadro. Quando a vemos, a jovem está na cozinha e, enquanto tenta obedecer à ordem de buscar uma sobremesa, se retorce em dores que se revelarão de parto. Aos 20 anos, está para dar à luz um bebê cuja existência desconhecia, num processo de negação psicológica da gravidez.

Os motivos para a negação se revelam em camadas —e a graça do primeiro longa da marroquina Meryem Benm’Barek reside em como eles se desdobram em uma trama complexa. De cara, pensamos ver um filme sobre a opressão imposta à mulher num país árabe.

Mas a personagem de Lena —a prima sofisticada, ocidentalizada e rica— dota o filme de novas nuanças. Lena acompanhará Sofia em seu périplo para colocar no mundo a evidência de seu crime —a pena para casais que têm sexo fora do casamento no Marrocos, nos informa um letreiro antes da cena inicial, chega a um ano de prisão.

A relação entre as duas redesenha Sofia e o próprio roteiro, ao colocar em cena a perspectiva de classe. Mesmo ali, uma mulher que tem dinheiro é menos oprimida do que uma mulher —ou um homem— que não tem.

O roteiro, não por acaso premiado na mostra Um Certo Olhar de Cannes, maneja com habilidade as polias desse mecanismo. Em sua sutileza, que se traduz formalmente no tom sóbrio das imagens, desvela novos fatos insuspeitos, que se resolvem de forma realista e contida, sem maniqueísmos.


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