Simples, filme francês 'O Parque' é pura subversão

Diretor Damien Manivel destaca condições em que as coisas acontecem

Os atores Naomie Vogt-Roby e Maxime Bachellerie
Naomie Vogt-Roby e Maxime Bachellerie interpretam jovens apaixonados em 'O Parque', do diretor Damien Manivel - Divulgação
Cássio Starling Carlos
São Paulo

O Parque (Le Parc)

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Naomie Vogt-Roby, Maxime Bachellerie e Sobéré Sessouma
  • Produção França, 2016. 71 min
  • Direção Damien Manivel

Veja salas e horários de exibição.

Comparado com a saturação —sensorial, midiática, de número de salas, etc.— de “Vingadores: Guerra Infinita”, um filme como “O Parque” pode ser visto como pura subversão.

Seu conceito é simples, quase simplório. Dois jovens se conhecem e passeiam num parque. Durante pouco mais de uma hora, os veremos conversar, se atrair, dar uns beijos e terminar. O tempo corresponde, se tanto, ao de uma ficada.

Parece tedioso? Sem dúvida é para quem limita seu conceito de cinema à ação.

O diretor Damien Manivel evoca, com esse material mínimo, uma corrente do cinema francês que, dos Lumière a Eric Rohmer, se interessa não tanto pela história quanto pelas condições em que as coisas acontecem.

Nesse sentido, “O Parque”, como os filmes desses predecessores, insere-se na tradição dos pintores impressionistas, cuja ambição era apreender a instantaneidade nas vibrações de luz e cor, revelar o que quase não notamos em meio ao puro fluxo da percepção.

A preferência de Manivel por planos fixos é o que mais aproxima o filme dessa inspiração, com composições estáveis como quadros, nas quais vemos as ações e falas dos personagens assim como a atmosfera da cena, os movimentos dos atores ao mesmo tempo que a vida da natureza.

A primeira parte, bastante idílica, termina subitamente quando o rapaz sai de cena. A partir daí, Manivel aproveita a longa espera da garota para deslocar nossa atenção para a passagem do tempo, visível na luz que se torna crepuscular.

À medida que escurece, os sentimentos da garota ganham contornos sombrios e, quando a noite cai, ela decide dar um passeio que dá ao filme outro rumo, obscuro, indefinível.

Ali a natureza fica enigmática, dilui-se em assombrações que remetem o filme para o domínio fantástico.
Mais uma vez, não há nada de extraordinário nessas imagens, nenhum efeito visual milionário, apenas pouca luz, muita sombra e uma ambiência sonora inquietante.

Se alguém, na saída da seção, nos perguntar sobre o que é o filme, será difícil encontrar respostas prontas. É uma história de amor? Talvez. Tem momentos angustiantes? Pode ser. Mais importante é lembrar que o título é “O Parque” e que este é o personagem principal.

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