Censurado na ditadura, Luiz Rosemberg Filho é homenageado na Mostra de São Paulo

O último filme do diretor, 'Bobo da Corte', será exibido durante o evento

São Paulo

Setenta minutos de invenção cinematográfica. É o que nos entrega Luiz Rosemberg Filho, morto em maio deste ano, em seu longa derradeiro, “Bobo da Corte”, com o qual acerta as contas com a nulidade política brasileira.

Trata-se de um monólogo em que Alexandre Dacosta, excepcional, interpreta o bobo do título. Como sempre, Rosemberg, ou Rô, como era conhecido pelos amigos, faz um manifesto político contra uma série de coisas: fascismo, hipocrisia, capitalismo ultraliberal. Acima de tudo, é antiestupidez.
O longa é uma das principais atrações da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O evento ainda resgata dois outros filmes do diretor: “O Jardim das Espumas”, de 1970, e “Crônica de um Industrial”, de 1978.

O Jardim das Espumas” é fruto direto de sua época: anos de chumbo, governo Médici, torturas e estado de exceção após o nefasto AI-5. Um clima de clandestinidade perpassa todo o filme, cheio de pontas soltas e tiros para todos os lados.

As imagens do nazismo, hoje, podem soar ainda mais terríveis, pela repetição da história. E o momento em que o próprio Rosemberg fala com a equipe, numa deliciosa paródia metalinguística, mostra sua capacidade para questionamentos diversos e para uma inteligente autocrítica.

Seu longa seguinte, “Imagens” (1972), é mais coeso, mas “O Jardim das Espumas” é um assombro. É a vontade de gritar, lutar a seu modo. Rosemberg se considerava da geração do cinema novo. Mas esse seu primeiro longa está mais sintonizado com o cinema de invenção de Júlio Bressane e Rogério Sganzerla.

Cena de "Bobo da Corte" (2019), de Luiz Rosemberg Filho
Cena de "Bobo da Corte" (2019), de Luiz Rosemberg Filho - Divulgação

“Crônica de um Industrial” é o longa em que sua verve inventiva e politicamente radical (o que lhe custou muitos problemas com a censura do regime militar) encontra uma dramaturgia sólida, romântica, em que um homem se perde entre a traição de suas convicções e a impossibilidade do amor.

Há atritos, e por vezes parece que vai descarrilhar. Mas é de uma força que raramente costumamos ver. É possivelmente a obra-prima do autor (embora muitos considerem “A$suntina das Amérikas”, de 1976).

“Bobo da Corte”, curiosamente, é seu filme mais português. A imagem cósmica no início lembra as aberturas de “A Comédia de Deus” e “As Bodas de Deus”, de João César Monteiro. A imagem da cadeira vazia enquanto o bobo entra e sai de quadro durante um de seus monólogos é puro Manoel de Oliveira (“O Quinto Império”, “Vou para Casa”). Em seu filme-testamento, Rosemberg se mostra à altura do melhor da produção contemporânea. Sem ele, o cinema fica muito menos inventivo.

Rosemberg na Mostra de Cinema de São Paulo

Bobo da Corte​
Brasil, 2019. Direção: Luiz Rosemberg Filho. Com: Alexandre Dacosta. 70 min. Livre.
O último filme do diretor Luiz Rosemberg Filho é um monólogo de um bobo da corte de um reino decadente. Enquanto o monarca dorme, ele reflete sobre a natureza do poder.
Dias 25, às 19h30 (Cinesesc); 26, às 14h (Cinearte 2); e 29, às 14h (IMS Paulista).

Jardim das Espumas
Brasil, 1970. Direção: Luiz Rosemberg Filho. Com: Fabíula Francaroli, Labanca e Nildo Parenti. 108 min. 18 anos.
O filme, que ficou perdido por 30 anos e só foi recuperado em 2014, mostra um planeta fictício muito pobre que recebe um emissário dos planetas ricos propondo um acordo econômico. Ao ser sequestrado, o estrangeiro descobre que nada é o que parece.
Dia 23, às 15h40 (Cinesesc).

Crônica de um industrial
Brasil, 1978. Direção: Luiz Rosemberg Filho. Com: Renato Coutinho, Ana Maria Miranda e Kátia Grumbeerg. 87 min. 18 anos.
Barrado pela censura de participar do Festival de Cannes, o filme narra a história de um ex-militante político que, ao herdar os negócios da família, trai seus ideais. Frustrado, também enfrenta crises pessoais com o suicídio da mulher e o abandono da amante.
Dia 27, às 15h45 (Cinesesc).

 

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