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Cinema

'Alice Júnior' foge aos padrões e aproxima gerações que estejam abertas a escutar

Longa de Gil Baroni com protagonista trans estreia no Belas Artes Drive-in

São Paulo

Alice Júnior

  • Quando Sex. (4), às 18h.
  • Onde Belas Artes Drive-in
  • Elenco Anne Celestino, Emmanuel Rosset e Surya Amitrano
  • Direção Gil Baroni

O público-alvo de "Alice Júnior" pode não pescar a referência, mas, como esta resenha sai em um jornal com leitor de idade média entre 30 e 40 anos, a alusão é válida. Lá vai: o filme, que estreia este mês e vem de bem-sucedida trajetória em festivais, tem um quê de filme da Xuxa dos anos 1980. E, sim, esta frase é um elogio.

A referência não tem nada a ver com os roteiros capengas dos longas da apresentadora, mas, sim, com a atmosfera que se criava. Algo entre o conto de fadas clássico e uma euforia libertária. Quem assistia sabe.

Por sorte, "Alice Júnior" eleva o astral a outro patamar. Na produção, dirigida por Gil Baroni, até há heroína e história de superação. Mas a catarse final vai muito além do beijo romântico do casal principal.

Isso porque retrata tudo aquilo que foge aos padrões. "Alice Júnior" mostra um momento crítico na adolescência de uma garota trans que, a exemplo de tantas na vida real, constrói sua imagem no YouTube.

Tudo parece bem quando o pai da menina é transferido de Recife para a prosaica Araucárias do Sul. Alice, que participou até de um reality teen e pensava ter encontrado seu lugar no mundo, se vê agora deslocada.

Colegas peritos no bullying não só relembram Alice das dificuldades de ser diferente, como ensinam ao público crescido tudo que seus filhos podem --e é quase certo que vão-- passar em algum momento.

Este é um dos maiores méritos de "Alice Júnior": falar tanto com aqueles retratados, como com seus responsáveis. Pode, assim, aproximar gerações, o que, em tempos de pandemia e isolamento, é sensacional.

Mas é importante lembrar que só é impactado quem se dispõe a escutar. E é bem possível que haja quem não esteja aberto para "Alice Júnior", filme que mistura Pablo Vittar e MC Xuxú, abusa dos efeitos digitais e é repleto de adolescentes falando palavrão.

E são elas, as jovens desbocadas, a melhor parte do elenco. Além de Anne Celestino, que levou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Brasília por sua Alice, brilham também Surya Amitrano (Taísa) e Thaís Schier (Viviane).

Os deslizes ficam por conta de algumas atuações mecânicas dos adultos coadjuvantes, e elementos desnecessário para reforçar a contraposição entre Alice e a cidade --caso do porão da nova casa, um antigo cenário de filmes pornô.

Palmas finais para Emmanuel Rosset como o pai Jean Gennet, para a analogia da flor na pinha e sobretudo para o conflito afetivo que move um trio do qual Alice acaba fazendo parte.

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