Stand-up vira febre nas periferias de SP e ajuda na recuperação de bares na pandemia

Comediantes sobem aos palcos com piadas locais sobre o dia a dia dos moradores

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São Paulo

Poucos dentes na boca, pele geralmente preta, muitas gírias e péssima dicção são alguns dos estereótipos comuns do pobre no humor nacional. Os inúmeros programas televisivos de comédia por anos acostumaram as pessoas a rir de personagens assim.

Mas no Grajaú, bairro no extremo sul de São Paulo, em uma noite de sexta-feira, o espetáculo de comédia começa de outro jeito. “Que alegria estar aqui e ver que a maioria é preto de favela. Aquela galera que você olha no olho e vê que vai entender as referências. Vieram uns brancos desavisados que a gente não chamou, mas que vieram porque acham importante participar."

É assim que começa o stand-up do humorista e ator Guilherme Junior, em uma apresentação com quatro comediantes no Graja Beer Pub. Esse é um dos locais da capital que vêm colocando espetáculos de comédia na periferia durante a pandemia, em um movimento crescente.

Um dos principais comediantes desta geração, o carioca Yuri Marçal viaja do Rio a São Paulo para se apresentar nas periferias. “Fazer isso com esse público é falar da gente pra a gente”, comenta o ator e comediante de 28 anos.

Marçal diz que o público da quebrada não quer apenas rir durante as apresentações, mas quer se identificar. “Ele festeja contigo, comemora as piadas e vibra junto. Quem é de favela e faz show na favela entende perfeitamente o que eu estou falando.”

“Se juntar a mesa do pessoal do Cantinho do Céu e do Cocaia, já vira formação de quadrilha." Se não entendeu essa piada do humorista Cassio Moys, que mora com a mãe no Grajaú, é porque você não faz parte do bairro —mas o público de lá ri com as piadas locais e com as referência a regiões próximas, a nomes de lojas e ao dia a dia dos moradores.
Apresentação de stund-up do comediante Cassio Moys, que mora no bairro Grajaú - Rubens Cavallari

Mas não são só os temas que atraem o público. Quando se mora longe do evento, os perrengues são muitos. Guilherme Junior lembra que apresentações no centro invadiam a madrugada antes da pandemia, quando os locais podiam estar abertos até tarde —agora o funcionamento é limitado pelo plano de quarentena do governo estadual. Na falta de transporte público nesses casos, uma corrida por aplicativo para voltar para casa depois da apresetanção podia chegar a custar até R$ 100, dependendo da região.

“No caso do teatro do shopping Frei Caneca, que fica no centro de São Paulo, eles sugeriram que os humoristas de stand-up pegassem o horário da meia-noite”, conta Junior, que diz que isso afastava o público da periferia, que não tinha como voltar depois.

Quem já teve que dormir no terminal esperando o ônibus sabe como é difícil. É o caso de Abner Müzel, comediante que, com o também humorista Renan Park, é sócio da Lilith Comedy, clube de comédia na Vila Prudente, zona leste de São Paulo. O estabelecimento exibe shows de comédia diariamente.

Müzel comenta que, mesmo que a temática periférica não seja incomum entre os comediantes de stand-up, como o humorista paulistano Thiago Ventura, eles não traziam o humor para a periferia —em vez disso, levavam a quebrada para o centro. “Fazer humor na periferia é de extrema importância. Isso possibilita que o morador vivencie e conheça a comédia perto da sua casa”, pontua.

Além de movimentar a cena dos atores e comediantes dos bairros, as apresentações têm sido um alento para os bares e restaurantes. “O stand-up traz um fôlego a mais neste tempo nebuloso de pandemia”, comenta Leandro Sequelle, 38, sócio-fundador do Graja Beer Pub. “É um evento em que abrimos a casa já com venda de lugares, podemos respeitar as normas sanitárias impostas pela Covid-19 e conseguimos prever o fluxo de caixa antes da data. Ajuda a manter o espaço vivo", diz.

Frequentador assíduo de shows de stand-up, o casal Flávio Silva e Nani Gomes, ambos com 37 anos e moradores do Jardim Eliana, bairro próximo ao Grajaú, acredita que assistir a apresentações de comédia na periferia é um movimento revolucionário. ​

“Ver um ambiente como esse ao lado de casa é muito gratificante. Dá vontade de apoiar o negócio local”, diz ele. “A maioria das pessoas que vem no 'Graja' é negra. Além de serem da minha cor, todos aqui têm a mesma vivência periférica que eu tenho. Esse sentimento deixa a noite mais agradável”, completa ela.

Como diz o comediante Cassio Moys: “Estou sem paciência para quem fala que eu moro longe”. Se você acha que a periferia está distante, a quebrada também acha isso de você.

ONDE ASSISTIR ÀS APRESENTAÇÕES

Graja Beer Pub
Rua José Bonifácio Filho, 49, Jardim Sao Benedito, tel. (11) 2362-5129.

Lilith Comedy
Av. Professor Luiz Ignácio Anhaia Mello, 1506, Quinta da Paineira, tel. (11) 96450-5277.

Hamsa Louge Bar
Av. Águia de Haia, 1337, Parque Paineiras, tel. (11) 99795-1455.