Don Curro fecha as portas e marca fim da era de ouro dos restaurantes espanhóis em SP

Mais antigo restaurante ibérico na cidade, fundado em 1958, endereço passou por disputa familiar

Continue lendo com acesso ilimitado.
Aproveite esta oferta especial:

1 ANO DE DESCONTO

3 meses por R$1,90

+ 9 de R$ 19,90 R$ 9,90

ASSINE A FOLHA

Cancele quando quiser

Notícias no momento em que acontecem, newsletters exclusivas e mais de 120 colunistas.
Apoie o jornalismo profissional.

São Paulo

Quem faz uma busca rápida na internet pelo mais antigo restaurante espanhol da cidade de São Paulo, o Don Curro, encontra a informação de que ele está aberto de terça a domingo. Os clientes que vão até o endereço, na rua Oscar Freire, 439, porém, dão de cara com um imóvel em obras, sem sinal da cozinha que funcionava por ali.​

A casa, na verdade, fechou as portas há cerca de dois anos, após seis décadas de funcionamento. Problemas na gestão, que incluíam disputas familiares e dívidas, estão por trás do encerramento.

O tradicional endereço da velha guarda paulistana foi fundado em 1958 pelo toureiro espanhol Francisco Rios Dominguez, que se mudou para o Brasil com a mulher, Carmen Escalona García Rios. Estreou no bairro de Água Rasa, na zona leste, com o nome Marisqueria Playa Grande.

Em 1966, virou Don Curro, nome que o ex-toureiro usava nas arenas, e migrou para o casarão de 2.000 m² em Pinheiros que tornou o endereço célebre entre quem buscava paellas e jarras de sangria. Com as receitas de dona Carmen e a simpatia de Francisco, o restaurante logo ganhou fama e se tornou referência de cozinha espanhola na capital.

Mas, depois dos anos de glória, o negócio começou a perder clientela e a ter problemas financeiros. Nos anos 2000, ficou sob o comando de dois dos filhos do casal, José Maria e Rafael Rios. Segundo ex-funcionários ouvidos pela reportagem, os irmãos passaram a se desentender sobre a administração do Don Curro.

O racha familiar terminou na separação dos sócios, em 2015. Rafael abdicou de sua parte na gestão e passou a tocar, ao lado dos filhos, outro restaurante —o Aragon, também de cozinha ibérica e a nove quarteirões do casarão.

Na época, segundo os funcionários, José Maria teve problemas de saúde e transferiu a administração para a filha, Sabrina Rios. Ainda em 2015, ela assumiu a operação, que passou por transformações no ano seguinte. Entre elas, a venda do imóvel próprio em Pinheiros para uma incorporadora. A casa, no número 230 da rua Álvares Guimarães, continua desocupada e deve dar lugar a um prédio.

Presuntos crus expostos no antigo Don Curro, quando ficava em um casarão em Pinheiros - Jefferson Coppola-17.jun.2009/Folhapress

A cozinha se mudou então para um imóvel menor, na rua Oscar Freire, a 1,5 km dali. Para ficar mais moderninha, incluiu bar de tapas e happy hour. Também ganhou um complemento no nome —virou Don Curro a la Sabrina.

A repaginação, porém, não cativou o público, o que ajuda a explicar o acúmulo de dívidas do restaurante. O impasse culminou em um processo contra Sabrina Rios, a atual proprietária, movido pela Fogões Espanhóis, empresa que arrendou o espaço.

Segundo dados da ação, a empresa alegou que o aluguel, de R$ 30 mil mensais, estava atrasado e que outras taxas não haviam sido pagas entre 2017 e 2018 —a dívida total chega a R$ 1 milhão. Como resultado, o contrato foi rescindido em 2019, e Rios teve que desocupar o imóvel por decisão judicial. Procurada, a proprietária não retornou os contatos da reportagem.

Além disso, entre 2015 e 2020, foram encontrados ao menos 30 processos trabalhistas contra o restaurante. Eles envolvem, na maioria dos casos, remunerações de funcionários. Em um deles, Rios chegou a afirmar em depoimento que “se viu sem condições de arcar com a totalidade dos salários e verbas rescisórias”.

Em abril de 2019, o Don Curro fechou. Uma publicação no Instagram da casa dizia que o restaurante faria uma pausa e voltaria em breve. Passou a atender por delivery até dezembro daquele ano, data da última atualização no perfil.

Ambiente do Don Curro a la Sabrina, em imóvel mais moderninho na rua Oscar Freire - Reprodução/Instagram @doncurrooficial

Ainda hoje há clientes que vão ao local, mas dão meia-volta para casa. Alguns deles recorrem a sites como Reclame Aqui e TripAdvisor para se queixar da falta de informações.

Atualmente, o espaço está em reforma. Mas os equipamentos de cozinha dão lugar a lavatórios e secadores de cabelo —a partir de setembro, um estúdio de beleza, o Studio Lorena, passará a ocupar o ponto na Oscar Freire.

Com 400 m² e três andares, o imóvel abrigou no passado outros restaurantes que tampouco deram certo, como o espanhol Alma Maria, fechado em 2012, e o japonês ZSan, que durou oito meses, em 2016.

Enquanto isso, o futuro do Don Curro é incerto. Fechado, ele encerra uma era de ouro dos restaurantes espanhóis da cidade e deixa as suas paellas na memória paulistana.