Gastronomia do Bom Retiro é museu da São Paulo que existia antes da Covid

Endereços clássicos da região mantiveram-se abertos mesmo com a pandemia

Miki, que toca a Burikita com o irmão David, observa o movimento da rua Três Rios, no Bom Retiro

Miki, que toca a Burikita com o irmão David, observa o movimento da rua Três Rios, no Bom Retiro Rubens Cavallari/Folhapress

São Paulo

Numa cosmopolita São Paulo, bairros sofisticados podem até atrair o hype, mas é o tradicional Bom Retiro que concentra a babel cultural —e gastronômica— da capital paulista.

A boa notícia para quem frequenta a região para comer é que, mesmo após 16 meses de pandemia, o Bom Retiro é um museu dos tempos pré-Covid. Por ali, muito pouco mudou.

Clássicos da região, como a Burikita, a Casa Búlgara —ou a Bureka da Shoshana—, o Acrópoles, o Falafel Malka, o supermercado Otugui, a Bellapan, a Fresh Cake e o Café Colombiano, permanecem por lá. Para reforçar a sensação de que pouco mudou, as novidades também são poucas.

Apesar do alento, o bairro sofreu, sim, algumas perdas. Entre as mais sentidas, estão a do Bistrô da Sara, antigo Buraco da Sara, e a do Shoshi Delishop.

A chef Sandra Valéria da Silva, que esteve à frente do Bistrô da Sara por 20 anos, conta que resolveu fechar as portas do restaurante por causa da pandemia. “Entendemos que a gente iria ficar nesse abre e fecha por algum tempo, então resolvemos fechar logo.”

O trintão Shoshi Delishop, por sua vez, deve voltar em breve. Último restaurante de cozinha judaica da região, o local também sofreu com a pandemia e chegou a anunciar, via redes sociais, que fecharia as portas até o fim de outubro —mas a comoção deu um novo respiro à casa, que divulgou que manteria a operação. Em fevereiro, chegou a comunicar que recebera um investimento e voltaria. Mas não voltou.

Ambiente do Shoshi Delishop, no Bom Retiro; restaurante fechou as portas durante a pandemia, mas um grupo se movimenta para resgatá-lo
Ambiente do Shoshi Delishop, no Bom Retiro; restaurante fechou as portas durante a pandemia, mas um grupo se movimenta para resgatá-lo - Arquivo Pessoal

Embora esteja com as portas fechadas e tenha parado com a comunicação via redes sociais, existe uma movimentação para resgatar o lugar.

“Peguei a chave do imóvel agora”, conta Benjamin Seroussi, diretor da Casa do Povo. Ele se uniu a mais dois sócios para ressuscitar o local —mas ele diz que o número de pessoas pode chegar a dez.

Seroussi explica que o grupo está entendendo como dar continuidade ao restaurante. Mas já vislumbra um caminho. Junto a Breno Lerner, especialista em culinária judaica, está trabalhando para resgatar pratos antigos. “Ele está nos contando das receitas do bairro, como o shpondra (costela bovina), do restaurante Europa.”

Essa movimentação vem de uma característica da região. Se atualmente o Bom Retiro é reduto de coreanos, no passado abrigou judeus —ambos, com comunidades fortes. Isso pode explicar a resiliência dos endereços mais antigos e o baixo número de falências na pandemia de Covid-19.

Talvez por isso entrar na confeitaria Burikita, desde 1970 na rua Três Rios, deixe a sensação de estar em uma cozinha de comadres. Mulheres tomam um cafezinho e conversam com Miki, que toca o local com o irmão, David Ben Avram. Uma mulher passa para buscar uma encomenda. “Dez burekas” —quitute de massa folhada servido por ali.

David, que herdou o negócio dos pais, imigrantes iugoslavos, atribui a fidelidade da clientela à qualidade dos produtos. “O bolo de figo com nozes, por exemplo, só tem aqui”, diz. Ao ser perguntado sobre como lidou com a pandemia, conta que aderiu ao delivery, “que ajuda, mas não é o forte”.

Ambiente do Shoshi Delishop, no Bom Retiro; restaurante fechou as portas durante a pandemia, mas um grupo se movimenta para resgatá-lo
Ambiente do Shoshi Delishop, no Bom Retiro; restaurante fechou as portas durante a pandemia, mas um grupo se movimenta para resgatá-lo - Arquivo Pessoal

Outro clássico da região, o grego Acrópoles, desde 1959 na rua da Graça, passa por situação semelhante com o delivery. “Mas o movimento no salão está voltando e estamos conseguindo nos virar”, fala Niqui Petrakis, que comanda o local com a irmã, Claudia.

A impressão é que o movimento tem melhorado em diversas casas, até as mais novas, como a 2020. Na esquina das ruas Correia de Melo e Graça —inundada de placas de “aluga-se” deixadas por lojas e confecções—, o café foi inaugurado há um ano.

“Foi difícil abrir na pandemia”, diz Kimerina Kim junto ao marido, André Lee. “Mas não podíamos deixar o ponto parado, então começamos como dava”, conta. A casa tem menu com bebidas quentes e geladas de influência coreana, além de sanduíches e doces. “Estamos crescendo”, dizem.

Onde comer no Bom Retiro

New Shin La Kwan
R. Prates, 343

Bellapan
R. Prates, 563

Fresh Cake Factory
R. Prates, 599

Snowfall
R. Prates, 547

Burikita
R. Três Rios, 138

Heat
R. Três Rios, 144

Supermercado Otugui
R. Três Rios, 251

Butumak
R. Três Rios, 209

Casa Búlgara
R. Silva Pinto, 356

Pho 366
R. Silva Pinto, 366

Joa Bakery
R. Silva Pinto, 379

UM Coffee
R. Júlio Conceição, 353

Acrópoles
R. Graça, 364

Falafel Malka
R. José Paulino, 345

2020
R. Correia de Melo, 23

Dare
R. Correia de Melo, 54

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