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Cinema

Longa 'Utoya - 22 de Julho' sobre massacre investe em adrenalina e se distancia da reflexão

Filmado em uma tomada única, obra foca em personagem fictícia inspirada em depoimentos reais

Bruno Ghetti

Utoya – 22 de Julho

  • Classificação 16 anos
  • Elenco Andrea Berntzen, Aleksander Holmen e Brede Fristad
  • Direção Erik Poppe

A tragédia de 2011 na Noruega, quando um extremista de direita fuzilou 69 jovens na ilha de Utoya, inspirou o cineasta norueguês Erik Poppe a se lançar em um projeto ambicioso. Quis mostrar o horror da chacina como se filmada em tempo real, em um só plano-sequência (uma tomada única, sem cortes).

“Utoya – 22 de Julho” insere o espectador entre os jovens pacifistas acampados na ilha, surpreendidos com disparos repentinos em sua direção. O foco é em Kaja, personagem fictícia inspirada em depoimentos reais. Quando não está em busca da irmã sumida, ela ajuda feridos e tenta salvar a própria pele.

O longa jamais mostra o criminoso atirando; apenas ouvem-se os tiros. E, claro, os gritos desesperados dos adolescentes, enquanto correm e tentam se esconder.

Na primeira metade, o filme é assombroso: de fato faz o espectador participar daquela experiência. Os takes foram claramente ensaiados, até coreografados, mas ainda assim o filme tem um ar de “calor do momento”, como se tivesse sido filmado por alguém da ilha.

Mas após certo tempo, o público recobra o fôlego. Readquire, também, uma certa distância do que vê, além da capacidade de raciocínio desapegado de emoção. O que é fatal.

Começa-se, por exemplo, a achar Kaja excessivamente heroica. Mas o problema da personagem não é de verossimilhança, é de identificação. Ela é tão sobre-humana que o público deixa de se ver refletido nela —e em vez de vítima ou mártir, torna-se uma chata.

O espectador começa também a exigir algo mais que adrenalina. A retórica de Poppe, claro, é a de que seu filme é um alerta para o quanto ideias extremistas podem causar situações terríveis. Mas “Utoya” tem muito mais afinidade com os chamados “filmes-catástrofe” —em que grandes tragédias deixam os personagens à beira da morte— do que com obras de fato reflexivas ou políticas.

Paul Greengrass já tinha falhado em sua tentativa de mostrar o episódio, em “22 de Julho”. Mas, ao menos, ele tentava explicar o que leva um jovem a cometer uma chacina. Já o filme de Poppe, no máximo, faz pensar sobre o quanto filmes em plano-sequência podem ter limitações.

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