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Cinema

Eleições municipais em cidade do agreste são tema de documentário

'Camocim' foi filmado pelo francês Quentin Delaroche na campanha de 2016

Alexandre Agabiti Fernandez
São Paulo

Camocim

  • Classificação 14 anos
  • Produção Brasil, 2017. 77 min
  • Direção Quentin Delaroche

Filmado na campanha das eleições municipais de 2016, este documentário chega num momento muito oportuno, durante outro processo eleitoral. Em Camocim de São Félix, cidadezinha de 18 mil habitantes do agreste de Pernambuco, dois partidos se enfrentam numa disputa marcada muito mais pela atmosfera de circo —um carnaval feito de carreatas com trios elétricos seguidos por multidões saltitantes, jingles, rojões, que inclui ainda cantos religiosos evangélicos e violência física— do que pela discussão de ideias.

Os dois partidos —identificados apenas pelos nomes Azul e Vermelho— são na verdade duas coligações partidárias, cuja composição não é revelada e nem ao menos insinuada. Ao evitar inserir a disputa local no cenário abrangente da polarização do país, o filme chama a atenção para a especificidade das eleições municipais em muitas cidades pequenas. Nelas, a disputa se dá entre “coronéis”, figuras de poucas famílias poderosas, num processo muito distante da polarização existente em nível nacional.

É nesse contexto ao mesmo tempo festivo e de competição acirrada cheia de demagogia e abuso do poder econômico que o diretor e roteirista francês Quentin Delaroche segue os passos da jovem Mayara Gomes, de 23 anos, coordenadora da campanha do amigo César Lucena, que concorre a vereador.

Desembaraçada e cheia de energia, Mayara joga em todas as posições, da invenção de estratégias de comunicação ao trabalho de persuasão  —o corpo a corpo com o eleitor.

Sempre na mão, a câmera de Delaroche mergulha no dia a dia dessa campanha sem recursos, que parece ir adiante apenas graças ao entusiasmo de Mayara e seu desejo de mudar a realidade. Ela parece ser a candidata e não o amigo, pouco carismático. As propostas de César —que diz querer melhorar as condições de vida dos jovens— não ganham maior destaque, são vagas e nunca debatidas.

A ênfase em Mayara inclui também sua vida familiar ao lado da mãe e de amigos, mas isso acaba não enriquecendo o personagem: cenas pouco relevantes se acumulam, fazendo a narrativa girar em falso, perdendo foco e força. O melhor momento desse esforço é o longo e emocionado diálogo com o tio em um bar, em que surgem informações preciosas sobre ela.

Preso entre a caracterização do inflamado contexto eleitoral da cidade e a não menos interessante jornada pessoal de Mayara, “Camocim” não consegue aprofundar nenhuma das duas frentes e fica aquém do esperado.

Veja as salas e horários de exibição. ​

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