Obsessão pelo corpo enfraquece drama latino 'Tamara' sobre transgênero

Longa é inspirado na trajetória em Tamara Adrián, referência na luta por direitos das minorias sexuais na Venezuela

Alexandre Agabiti Fernandez
São Paulo

Tamara

  • Quando em cartaz
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Luis Fernández, Prakriti Maduro, Mimi Lazo, Karina Velázquez
  • Produção Venezuela, Uruguai, Peru, 2016

A advogada e ativista a Tamara Adrián é uma figura de referência na luta por direitos das minorias sexuais na Venezuela. Professora de direito em uma universidade católica de Caracas, travou um verdadeiro combate para continuar lecionando depois de ter feito uma cirurgia de mudança se sexo. Anos mais tarde, em 2015, seu pioneirismo e combatividade fizeram dela a primeira deputada transgênero eleita na América Latina.

O filme não é uma biografia de Tamara Adrián, é uma ficção inspirada em sua trajetória. Conta como o advogado Teo Almanza (Luis Fernández) se transforma em Tamara Almanza.

Teo vive em Paris, onde foi fazer doutorado, e volta às pressas para seu país quando recebe a notícia da morte de um irmão em um acidente de caça. Dias depois, a mãe –que é divorciada e mora sozinha– cai doente e ele decide ficar para cuidar dela.

O visual andrógino de Teo, com cabelos longos e saltos altos, irrita outro irmão e o pai, duas figuras frias e distantes. E também impede que ele consiga emprego como advogado. Para arrumar trabalho, é obrigado a adotar uma imagem masculina mais convencional. Rapidamente chega à presidência da empresa e passa a levar uma vida confortável.

Paralelamente, se envolve com a pianista Maria Isabel (Karina Velázquez), com quem se casa e logo tem dois filhos. Mas é evidente que não está feliz tendo que se reprimir para ser aceito.

Mortificado, ele decide encarar a transição. A narrativa passa a insistir em imagens do corpo, afinal, é nele que se dará a mudança. Mas o faz de maneira obsessiva, em inúmeras cenas. Teo se olha no espelho escondendo o pênis entre as pernas, sonhando em ter uma vagina; contempla os seios que crescem durante a terapia hormonal, se entrega aos rituais de maquiagem.

Até a cirurgia é mostrada com algum detalhe. A preocupação com o corpo é exagerada; o filme se compraz em mostrá-lo num gesto que parece pretender instalar uma curiosidade mórbida no espectador, aproximando a metamorfose de Teo do insólito. A longa e humilhante cena em que Tamara se despe diante dos agentes de segurança no aeroporto é dispensável e só reforça essa fixação voyeurística.

A angústia existencial do personagem vai muito além do corpo, é uma luta interna que envolve medo, rejeição e preconceito. O sofrimento de Teo é expresso por silêncios, o que é compreensível, pois ele não confia em ninguém. O roteiro –assinado pela diretora Elia Schneider e pelo uruguaio Fernando Butazzoni– se satisfaz com os silêncios e não elabora outra forma de mostrar essa angústia.

O relacionamento de Teo com Ana (Prakriti Maduro), bibliotecária da universidade, tampouco é bem trabalhado. Ana é uma jovem carismática, de cabeça aberta, mas sua presença parece servir apenas para despertar empatia no espectador, fazer um contraponto de leveza ao drama de Teo e afirmar que Tamara é uma transgênero que gosta de mulheres.

O filme tem o indiscutível mérito de dar protagonismo a um personagem transgênero e à longa série de obstáculos e hostilidades que tem de superar, mas cai numa superficialidade que não serve à causa que defende. Fazer do corpo o cavalo de batalha é reduzir a sexualidade aos órgãos genitais e empobrecer a jornada de Teo/Tamara.

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