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Protagonismo de Catherine Deneuve é o grande trunfo de longa francês

'A Última Loucura de Claire Darling' coloca atriz em cena com a própria filha

São Paulo

Todo filme de ficção para existir precisa sair da forma escrita do roteiro e ser interpretado. A encenação e o trabalho do elenco corporificam as descrições. O maior trunfo de “A Última Loucura de Claire Darling” é ter Catherine Deneuve como protagonista. Sem ela, a personagem e o filme seriam só um conceito.

A diretora Julie Bertuccelli adapta o romance “Faith Bass Darling’s Last Garage Sale”, da escritora norte-americana Lynda Rutledge, sobre uma ricaça texana que decide se desfazer, num esquema “família vende tudo”, da coleção querida de objetos decorativos.

Não é por acaso que um relógio montado sobre a figura de um elefante seja a peça mais valiosa desse acervo. Estes símbolos quase óbvios do tempo e da memória permitem figurar os temas do passado, da tradição e da herança, que o filme aborda de modo irônico.

A escolha Deneuve e Chiara Mastroianni para o papel de mãe e filha reitera a ironia. Além da diferença de aparência, elas mal se alinham.

Os objetos que Claire Darling decide vender representam sua própria vida. Ela acorda sabendo que morrerá naquele dia e seu último gesto é de liberação, de se livrar dos traumas da morte do filho, da impossibilidade do amor. Há método mais que loucura em sua decisão.

Ainda bem que Bertuccelli contorna os riscos de transformar tudo isso num mil-folhas psicológico. Os flashbacks iluminam aqui e ali os motivos da desrazão de Claire, mas é nos curtos-circuitos mentais da personagem, nos erros de identificação que ela comete, que compartilhamos seu drama.

A contribuição de Deneuve é o que eleva o filme a outro patamar. Mais que ótima atriz, ela é um ícone, em particular do cinema francês dos últimos 60 anos.

Deneuve não é apenas uma senhora “conservada”, ela preserva na voz, nos gestos e em sua beleza madura o viço, a audácia de quem se libertou do poder maligno do cinema.

Do mesmo modo que constrói estrelas, o cinema as destrói quando elas perdem a juventude. Deneuve, ao contrário de Claire, se apropriou de sua imagem. Graças ao cinema, sua beleza divina está eternizada e agora ela usa seu poder para injetar vida nos filmes como uma vampira às avessas.

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