CRÍTICA: Documentário investiga agente e situação do Chile entre ditaduras militares

INÁCIO ARAUJO

O PACTO DE ADRIANA (bom) 
(El Pacto de Adriana) 
DIREÇÃO Lissette  Orozco 
PRODUÇÃO Chile, 2017. 96 min. 14 anos. 
Veja salas e horários de exibição.

 

"O Pacto de Adriana" faz lembrar a entrevista em que David Lynch explica como surgiu a fenomenal ideia de transformar o personagem de "Estrada Perdida" (1997) em outro no momento em que é preso por conta de um assassinato.

Diz Lynch que, ao ver o julgamento de O.J. Simpson pela TV e a maneira como ele negava seus crimes, acreditou estar diante não de um espertalhão que se dizia inocente, mas de alguém que, incapaz de confrontar seu ato hediondo, inventava uma outra personagem para si mesmo.

Em "O Pacto de Adriana", a diretora chilena Lissette Orozco investiga o que realmente aconteceu com sua tia Adriana, personagem mítica de sua família, que, ao desembarcar em Santiago, chegando da Austrália, foi imediatamente presa.

Quem é –e sobretudo quem foi– essa Adriana (ou Chany, seu apelido)? Eis a dúvida em que se debate o filme, ao longo das verdades e mentiras da ditadura chilena ali evocadas.

Objetivamente, Adriana foi uma agente da Dina, a polícia política de Pinochet, agora acusada de torturadora.

Nada que Adriana aceite. Ou melhor, sim, trabalhou na Dina, sim, participou de festas, esteve em embaixadas etc. etc. Das chamadas benesses do poder desfrutou a valer. Mas torturar, diz ela, nem de longe. Nem sabia, na época, que essas coisas ocorriam.

Orozco dedica-se então a buscar, por trás dos segredos familiares, essa tia. Tenta falar com outras mulheres que participaram da organização, mostra fotos, expõe a negação reiterada de Adriana, que não teria participado de nada, que não sabia de nada.

Do outro lado existe seja um muro de silêncio (quer dizer, pessoas que se recusam a comentar o assunto devido a seu envolvimento), sejam acusações que surgem de várias partes.

Adriana nega tudo. Sempre, enfaticamente, com argumentos racionais (sobre o funcionamento da Dina) ou aos prantos, tentando argumentar que se fazia confusão com alguma outra colega.

Todo o tempo pensamos em um outro grande diretor, Orson Welles, em seu "Verdades e Mentiras" (1973) ou em sua obra inteira, que gira em torno dessa dúvida: o que é verdade, o que é mentira, o que é ilusão. Como a verdade é, no fim das contas, algo que não se alcança.

Orozco faz um bom trabalho, mesmo cinematograficamente: o recurso à filmagem do Skype, aos filmes de família, ao improviso por vezes, permitem uma montagem ágil e mostram de maneira eficiente, ao mesmo tempo, a questão e o que há de dilacerante nela.

Trabalhando num gênero cuja importância tem crescido nos últimos anos, o documentário de investigação jornalística, "O Pacto de Adriana" consegue dar conta não só da situação familiar abordada como também da situação do Chile entre as ditaduras latino-americanas da segunda metade do século 20: a argentina foi desmontada item por item; a brasileira escapou ilesa e poderosa; a chilena ficou entre as duas, com muitos torturadores punidos, mas o mito Pinochet (com elogios das torturas e assassinatos inclusive) segue vivíssimo na sua direita política.

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