Descrição de chapéu Crítica
Cinema

'Mudbound' fala sobre racismo no sul dos EUA com enredo épico-romântico hollywoodiano 

Adaptado de romance de Hillary Jordan, filme foi indicado a quatro estatuetas do Oscar

LUIZ CARLOS OLIVEIRA JR.
São Paulo

MUDBOUND - LÁGRIMAS SOBRE O MISSISSIPPI (regular)
(Mudbound) 
DIREÇÃO Dee  Rees 
PRODUÇÃO EUA, 2017. 134 min. 16 anos
ELENCO Mary  J. Blige, Carey  Mulligan, Jason Mitchell e Jason  Clarke
Veja salas e horários de exibição.

Na primeira cena de "Mudbound", Henry (Jason Clarke) e seu irmão mais novo Jamie (Garrett Hedlund) cavam uma cova numa terra lamacenta do Mississippi. Eles encontram grilhões e uma ossada humana com um furo na parte posterior do crânio, indicando ser um escravo, morto com um tiro por ter tentado fugir. Henry afirma que aquela cova não serve para enterrar o pai, que, descobriremos, era da Ku Klux Klan.

Adaptado do romance homônimo de Hillary Jordan, "Mudbound" se passa na época da Segunda Guerra e acompanha a trajetória de duas famílias do Sul dos Estados Unidos, uma branca e outra negra. As circunstâncias obrigam as famílias a dividirem um mesmo quinhão de terra numa paisagem rural chuvosa e tenebrosa, antítese da imagem do sonho americano da terra prometida.

Como o título original já indica, o solo barrento daquele lugar é o único e frágil cimento que designa um espaço comum.

O começo descrito mais acima é promissor: espécie de escavação arqueológica que faz aflorarem os signos de identificação de um passado histórico cujos atavismos, a começar pelo racismo violento, serão o motor da narrativa.

Mas o destino do filme é mais convencional e decepcionante do que se poderia imaginar. A visada histórica complexa rapidamente cede a uma construção novelesca sentimentalista e superficial, sem que se invista com vigor nos conflitos centrais do drama familiar que se insinua.

"Mudbound" segue uma estratégia que o cinema americano conhece desde Griffith e que consiste em articular a história, a grande narrativa do destino coletivo da humanidade, com as pequenas narrativas das pessoas comuns, tentando construir suas vidas em tempos conturbados. Uma articulação do individual com o coletivo, pedra angular do enredo épico-romântico hollywoodiano.

Embora possua todo um histórico de casos exemplares, a equação está longe de ser simples. E a forma pela qual "Mudbound" tenta driblar tal dificuldade consiste numa alternância de narrações em "off" feitas pelos próprios personagens, cujas vozes se revezam na função de pontuar os blocos dramáticos do filme.

A operação se mostra uma falsa variação de ponto de vista, que traz pouca ou nenhuma contribuição interessante para o andamento da narrativa. Parece mais uma muleta estética a que o filme se agarra para se proteger de sua banalidade, de seu academicismo temperado por uma "alma de literatura" que as narrações tentam inutilmente instilar nas imagens.

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