Descrição de chapéu Crítica
Cinema

'Torquato Neto' retrata a geleia geral em torno da vida e da obra do poeta e compositor piauiense

Documentário reúne arquivos e entrevistas com antigos parceiros do jornalista

Torquato Neto abraça o cantor Gilberto Gil
Torquato Neto e Gilberto Gil, parceiros em composições da Tropicália - Reprodução
LÚCIA MONTEIRO
São Paulo

Torquato Neto: Todas as Horas do Fim

  • Quando Estreia nesta quinta (8)
  • Classificação 14 anos.
  • Produção Brasil, 2017. 88 min.
  • Direção Eduardo Ades e Marcus Fernando

Veja salas e horários de exibição.

Seria contraditório um documentário sobre Torquato Neto que optasse por um formato convencional e palatável. “Todas as Horas do Fim”, felizmente, afasta-se de caminhos trilhados. 

No longa, realizado por Eduardo Ades e Marcus Fernando, arquivos e entrevistas com antigos parceiros combinam-se com liberdade e delicadeza, numa lógica influenciada pela estética do super-8, bitola pela qual o poeta e jornalista piauiense nutria especial apreço.

Nascido em Teresina (PI), em 1944, Torquato Neto viveu intensamente em Salvador, no Rio de Janeiro, em Londres e em São Paulo. Aos 28 anos, “foi para não voltar” (como está em “Para Dizer Adeus”, que compôs com Edu Lobo pouco antes de se matar), deixando um legado valoroso. 

São de sua lavra algumas das melhores letras da Tropicália, como “Deus Vos Salve a Casa Santa” (com Caetano Veloso), “Geleia Geral” (com Gilberto Gil), além de composições inesquecíveis ao lado de Jards Macalé e Sérgio Britto

Ainda que visse o jornalismo mais como passagem do que como pouso definitivo (a expressão é de Paulo Roberto Pires), seus textos, publicados no Jornal dos Sports, Correio da Manhã e Última Hora, são pura poesia e não perdem o vigor quando lidos em coletâneas póstumas.

Havia em Torquato Neto, ainda, um permanente desejo de cinema, posto em prática no cenário marginal —como ator, estrelou “Nosferato no Brasil” (1971), de Ivan Cardoso; como diretor, fez “Terror da Vermelha” (1972).

O personagem, finalmente, foi também pai de Thiago Nunes, marido de Ana Maria Duarte (cujo lugar no filme é incomodamente discreto), filho de Heli e Salomé.

“Todas as Horas do Fim” apresenta essa “geleia geral” sem se dobrar à banalidade das “cabeças falantes”. A lógica superoitista de separação entre imagem e som guia o filme, sem que ceda aos maneirismos com que o formato vem sendo usado. O rosto dos entrevistados surge em retratos fugidios; suas vozes são ouvidas enquanto se veem incríveis registros de Torquato. 

Tal construção conduz a uma explosão de emoção quando a sincronia sobrevém e Gal Costa canta “Mamãe Coragem” olhando para a câmera, numa imagem de televisão: “Pegue uns panos pra lavar/ leia um romance/ [...] Seja feliz” (a destinatária evidentemente detestava os versos).

Diferente de seus parceiros, Torquato Neto nunca se tornou uma figura midiática. O filme vale-se da única gravação de sua voz encontrada (as imagens filmadas em super-8 e 16 mm são silenciosas). 
A película e a montagem diacrônica, além de valorizarem a preciosidade das aparições de Torquato, respeitam o arrojo estético do homem de “alegria cansada”, sempre pronto para “desafinar o coro dos contentes”.
 


 

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