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Cinema

Fórmulas prontas esvaziam trama da cineasta japonesa Naomi Kawase

Masatoshi Nagase e Juliette Binoche protagonizam o filme 'Vision'

São Paulo

Vision

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Juliette Binoche, Masatoshi Nagase e Takanori Iwata
  • Produção Japão/França, 2018. 109 min
  • Direção Naomi Kawase

As lágrimas que escorrem pela face de Juliette Binoche a cada encontro de sua personagem com a natureza e a espiritualidade orientais servem para garantir que “Vision” mereça o adjetivo “sensível”.
As emoções não podem mais fluir sob a superfície das imagens, como em “Suzaku” (1997) e “Shara” (2003), longas que revelaram e confirmaram o imenso talento da diretora japonesa Naomi Kawase para filmar o inefável.

Apesar de não surpreenderem, seus filmes preservaram a aura autoral nos temas e no olhar elegíaco. “Vision” retoma a ideia da natureza como espaço concreto e simbólico, um lugar em que a exuberância material captada em sons e movimentos nos enleva junto aos personagens e nos força a ultrapassar os limites da existência individual.

Esta fusão sensorial com a natureza por meio do cinema culmina numa espécie de sublime, numa sensação de espiritualidade que abole as distâncias entre o aqui e o além.

A introdução de uma atriz com valor internacional no interior desse sistema supostamente permitiria amplificar seu alcance, libertá-lo da condição de cinema para iniciados. A presença de uma personagem intérprete, que traduz as falas em japonês e em francês, confirma essa disposição.

Mas o que isso provoca, ao contrário, é uma perturbação que esvazia a originalidade de Kawase. Tal como sua personagem, Binoche atua como a turista que olha e não vê, que faz cara de conteúdo para enfatizar o que não precisa ser dito. A revelação, que antes era pressentida, agora precisa ser demonstrada e comentada.

Sem o mistério, sem o intuído, a estética filosófica de Kawase se esvai numa sucessão de fórmulas prontas, num processo equivalente ao de Terrence Malick a partir de “A Árvore da Vida” (2011). A necessidade de estetizar cada plano, de saturar a narrativa com voos sobre paisagens deslumbrantes dispara o desconfiômetro de qualquer espectador treinado para não sucumbir à tentação da bela imagem.

Logo, em vez de se tornar acessível, Kawase trai seu cinema reduzindo a espiritualidade a fórmulas de autoajuda. Em nossos tempos mais que óbvios, não basta se encantar, é preciso ouvir a protagonista sussurrar ao final: “Que bonito!”.

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