Realidade virtual, garçons robôs e 'smart museums': para onde pode ir a cultura

Robôs nos servirão em restaurantes? Poderemos sentir os aromas de um filme? O teatro vai deixar de existir? E, afinal, será que é esse mesmo o caminho que queremos para a cultura?

Nos 20 anos do suplemento, o "Guia Folha" conversou com pesquisadores de futurismo e gente que pesquisa tendências no setor para um exercício de imaginação.

Qual pode ser o futuro da vida cultural?



COMO PODE SER O FUTURO DO...

... TEATRO

O teatro no futuro, para o diretor Gerald Thomas, será como o de hoje: "Caixas pretas, teatro de rua, anfiteatros, aquele que o público segue em hospícios. Estamos aí há tempos", diz. Mais do que truques como a projeção de atores e sistemas de som mais potentes (inclusive já em uso hoje), sempre serão necessários atores e público, lembra o ator Marcelo Médici.

Craig Lambert, editor da "Harvard Magazine", defendeu em um artigo na publicação que o teatro beneficente e para crianças deve ganhar relevância, bem como as peças que deixem a plateia imersa na ação —derrubando o proscênio e as demais "paredes".


... CINEMA

Para figuras como a atriz e diretora Helena Ignez, salas de cinema "não existirão" no futuro. Há visões menos apocalípticas, no entanto. Em casa, conteúdos on demand vão ganhar força; fora dela, podem-se esperar filmes que serão experiências imersivas (imagine um 4D amplificado, que simule mais e mais sensações) e "gamificadas", com a plateia se envolvendo no roteiro.

"A próxima geração nunca vai ter visto um filme em película, então teremos diferentes experimentações e vivências em ambientes cinematográficos", diz Leandro Pardí, coordenador de difusão da Cinemateca Brasileira.

A exibição se tornará mais democrática e "poderá ser feita até dentro de casa, com o uso de realidade aumentada e realidade virtual", diz a pesquisadora de futurismo Isadora Ferraz, da Aerolito. "Existe a chance de atores atuarem ao vivo, a 'real time cinematography', e de filmes com conteúdo feito para grupos específicos, por meio do uso de dados."


Realidade virtual
Frequentadores de feira de tecnologia na França testam óculos de realidade virtual - Damien Meyer - 22.mar.2017/AFP


... RESTAURANTE

"Comida e restaurantes são o principal meio de socialização, por isso não devem mudar tanto", diz a colunista da Folha Alexandra Forbes, que circula pelo mundo atrás de tendências no setor. Inclua-se nisso as figuras de chefs e bartenders —robôs são mais eficientes só do ponto de vista econômico e dificilmente substituirão o talento humano para cozinhar.

Mas a inteligência de dados pode fazer com que o restaurante já saiba, de antemão, que prato vai agradar mais a cada cliente —é o que imagina Paulo Floriano, diretor de inovação no iFood. Comida saudável deve deixar de ser algo de nicho para dominar a mesa, com o aproveitamento integral de ingredientes e a valorização do artesanal —inclusive pelas grandes indústrias.

Carne feita em laboratório? Talvez, para pesquisadores de futurismo como Isadora Ferraz. Dificilmente, segundo chefs como a gaúcha Roberta Sudbrack. "A vida foi se tornando extremamente tecnológica, o que, em alguns aspectos, sufoca. Isso gera uma necessidade de pausas, de busca por espaços, e um retorno à normalidade: espaços menos rebuscados, mais acolhedores. A ligação com o campo e o produtor é um caminho sem volta", diz.

Garçom robô serve frutas em restaurante de Xuchang, na China ***  ****
Garçom robô serve frutas em restaurante de Xuchang, na China - Li Bo - 11.jan.2015/Xinhua


... MUSEUS

Museus no futuro devem ser colaborativos e tecnológicos --ou uma espécie de "smart museum". "A relação puramente visual com obras expostas competirá cada vez mais com o acesso virtual remoto, então a comunicação da curadoria deve incorporar essas formas de interação virtual", diz Felipe Chaimovich, curador do MAM.

Para Eduardo Biz, fundador da plataforma de arte Artikin, os espaços deverão ser pautados pela contemporaneidade. "Eles serão responsáveis pela continuidade da escrita da história e terão a responsabilidade de reajustar o foco da sociedade sobre questões políticas, sociais, éticas e econômicas", diz. "Levantarão bandeiras e tentarão resolver problemas do mundo de forma transparente e palpável."

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