Como a gastronomia e a cultura de São Paulo planejam passar por 2021?

Instituições da capital projetam o impacto da pandemia na programação do novo ano

Ilustração para o Guia de 4.jan.2021, sobre como fica a cultura na capital paulista

Carolina Daffara

São Paulo

Adaptação. Essa pode ser considerada a palavra do ano de 2020, especialmente para o setor cultural e gastronômico de São Paulo. A pandemia atropelou qualquer planejamento e pôs à prova o jogo de cintura de cinemas, teatros, museus, restaurantes e bares da capital.

Com o aumento de casos de coronavírus e tudo voltando a fechar as portas, sobram incertezas para 2021 —ano em que a cultura paulistana deve lidar mais uma vez com o chamado novo normal.

Nos cinemas, uma das apostas é criar novos projetos, diversificar a programação das salas e apostar em outras fontes de renda. André Sturm, diretor do Petra Belas Artes, quer incrementar as opções deste ano com apresentações de artistas ao vivo no lugar.

“No otimismo de que a situação melhore, vamos ampliar o uso do cinema, com artes cênicas, música, teatro e performance e fazer do Belas Artes um centro cultural.” Segundo ele, ideias do tipo foram testadas em 2019, mas a pandemia impediu a continuidade.

A rede Cinemark vai pelo mesmo caminho. Além dos filmes, os cinemas já transmitem shows e eventos esportivos. Como músicos e atletas não podem se apresentar para grandes aglomerações, as salas se tornam uma alternativa.

“Ver o cinema como uma arena segura, com protocolos de distanciamento, abre a possibilidade de oferecer outros conteúdos”, diz o diretor de marketing Daniel Campos.

Entre os desafios herdados de 2020, o principal é reconquistar a confiança do público. “Estamos ansiosos para que as vacinas cheguem e a preocupação diminua”, diz Sturm.

Mas 2021 traz algumas boas notícias para os cinemas. O adiamento de estreias resultou numa agenda de lançamentos com grande potencial de bilheteria —entre as novidades do ano, há os novos filmes de “Minions” e “007”.

Já o Sesc São Paulo diz que pretende manter parte de seus eventos de forma online, incluindo atividades como o Sesc Verão, previsto para a segunda quinzena de janeiro.

“Somos uma instituição que promove aglomerações pelo tipo de atividade que produzimos”, analisa Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo. “Acho que o modelo anterior não vai existir mais. Vamos ter algo novo, que mistura o digital e o presencial.”

Apesar de ter retomado algumas atividades —entre elas, algumas exposições com agendamento e rígido protocolo de segurança—, Miranda prefere não fixar uma data para a reabertura das 44 unidades do estado. Segundo ele, há particularidades em cada região no enfrentamento da pandemia, o que impossibilita um cronograma unificado.

No mundo da música e do teatro, produtores e casas de espetáculo passaram o ano testando novas linguagens. As lives acabaram sendo a saída escolhida pela maior parte deles —menos pelo dinheiro, mais para manter a programação viva. E elas devem continuar reinando.

“As lives deixaram o mercado ativo. Se não houve retorno financeiro, teve os retornos de marca e o afetivo”, conta Noemia Matsumoto, diretora de conteúdo da Opus, que cuida dos teatros Bradesco e Opus.

Segundo Paulo Zuben, diretor artístico da Santa Marcelina Cultura, responsável pelo Theatro Municipal, as transmissões ainda deixam um legado de democratização da música que pode mudar o atual cenário. “É possível que continuemos com esse modelo híbrido de concertos presenciais e transmitidos online, porque é uma forma de chegarmos às periferias, fora da cidade e até do Brasil”, afirma.

Apesar disso, é consenso entre o Municipal e a Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, que é preciso encontrar uma forma de equalizar os gastos das lives. “Chegou o momento de dar um sentido estético e viabilizá-las de forma contínua”, afirma Marcelo Lopes, diretor-executivo da Fundação Osesp.

“Mas o nosso grande trabalho vai ser reconquistar a confiança no evento ao vivo. Depende de mostrarmos que nossos protocolos têm consistência, mas também de ações de governo que mostrem que as pessoas podem sair de casa seguras”, conclui Lopes.

Essa segurança do público passa invariavelmente pela vacina contra o novo coronavírus —motivo de disputas entre o governo federal e o governo de São Paulo. O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar que a “pressa para a vacina não se justifica”.

“Acredito que a partir de fevereiro o público voltará, as casas estarão com a capacidade maior e parte da população estará vacinada”, prevê Christian Tedesco, vice-presidente do Tom Brasil. “Vai ser duro, mas sou otimista”.

Essa visão não é necessariamente compartilhada por espaços menores, como o Teatro Oficina. “O trabalho que fazemos é aglomerador. A gente não tem um palco que fica na frente, com as pessoas do outro lado. É tudo próximo. Temos projetos, mas não sabemos o que vamos fazer”, diz Marcelo Drummond, diretor e ator do grupo.

Se os espaços menores não trabalham com um horizonte, as casas maiores começam o ano com uma reorganização das agendas e uma programação “dois em um” que dê conta dos eventos herdados de 2020. “Muitos espetáculos foram cancelados e transferidos. Já estamos com o ano praticamente lotado. Mas se em janeiro houver um agravamento da pandemia, o cenário começa a mudar”, afirma Matsumoto, do Teatro Bradesco.

Se cinemas, teatros e casas de shows ainda tentam equacionar as apresentações digitais, museus e instituições culturais de São Paulo afirmam que a adaptação das atividades para as plataformas virtuais veio para ficar.

De acordo com Marcelo Araújo, diretor-geral do Instituto Moreira Salles, “mudanças ocorridas neste ano devem continuar se impondo”. Visitas virtuais por exposições e mostras criadas especialmente para o ambiente online devem seguir dominando.

O Museu da Imagem e do Som, por exemplo, transformou a exibição “Leonardo Da Vinci – 500 Anos de um Gênio”, que tinha apenas versão física, numa visita online.

Já a Pinacoteca conta que, devido ao sucesso da mostra “Distância”, outras exposições totalmente virtuais entrarão na programação de 2021. Jochen Volz, diretor-geral do museu, ressalta que a bilheteria online e o agendamento de hora, implantados em outubro, serão mantidos.

Mas é claro que as incertezas sanitárias e econômicas impactaram duramente a programação das instituições. O Masp, por exemplo, havia anunciado que seu 2021 seria dedicado às histórias indígenas. Seria. Ficou para 2023.

“Traríamos obras de fora e teríamos curadores convidados. Por isso, preferimos postergar”, conta Tomás Toledo, curador-chefe do museu. Com isso, o ano das histórias do Brasil, programado para 2022, virou um biênio e começará mais cedo, já no segundo semestre deste ano.

Se os museus driblam a pandemia, na gastronomia o cenário é mais complicado. Dependentes do público presente para o funcionamento pleno, o setor dos bares e restaurantes foi um dos mais afetados. Mas os chefs vêm buscando nos ambientes digitais uma forma de se manterem ativos.

Alex Atala, do Grupo D.O.M., por exemplo, acaba de inaugurar a Nóix, uma cozinha que funciona exclusivamente para delivery via aplicativo. Ele diz que um dos seus objetivos é também solidificar a base de conteúdos digitais —o chef acaba de conquistar 100 mil inscritos em seu canal no YouTube.

Outro que está de olho no online é Felipe Schaedler, do Banzeiro. “A digitalização do nosso negócio foi uma das lições aprendidas no ano. Em 2021, nosso trabalho será entrar cada vez mais no mundo digital, criar bastante conteúdo e trazer novidades para motivar os clientes a virem ao nosso restaurante”, diz.

No caso dos bares, eles seguem tateando no escuro e avaliando diariamente a situação, sobretudo por causa da natureza noturna do negócio. Entre novembro e dezembro, por exemplo, o setor foi autorizado a funcionar em São Paulo até as 23h. Depois, até as 22h. No momento, até as 20h —e ficarão fechados até domingo, dia 3, por causa da fase vermelha da quarentena.

Segundo Vinícius Lupe, diretor do Grupo DRK, dos bares Caulí, Fortunato, Olívio e Mule Mule Muleria, porém, os primeiros meses do ano serão sofridos, mas há uma expectativa de retomar o crescimento.

“A perspectiva é que, com a vacina, a gente volte para o padrão de antes, porque as pessoas querem sair”, acredita.

A vacinação é também vista como a luz no fim do túnel para Helton Altman, à frente dos bares Filial e do Genésio. “Tenho que balancear a preocupação com a doença com o lado financeiro, mas não consigo imaginar os bares aglomerados e sem risco à saúde antes da vacinação”, afirma.

Se a cultura e a gastronomia depositam suas fichas na imunização, por enquanto elas esperam sentadas. A data para o início da campanha no Brasil ainda é um mistério.

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