Documentário sobre mulheres árabes afetadas pela guerra é feito de silêncio e distância

'Caos', exibido em mostra online, costura histórias femininas e reflete sobre a dor

Cena do filme 'Caos', de  Sarah Fattahi

Cena do filme 'Caos', de Sarah Fattahi Divulgação

Caos

  • Preço Exibição de 3 a 9/9 na 16ª Mostra Mundo Árabe de Cinema
  • Classificação Livre
  • Produção Áustria/Síria/Líbano/Qatar, 2018
  • Direção Sarah Fattahi

As personagens de “Caos” parecem viver uma espécie de dupla perplexidade —o que dizer do mundo e o que dizer ao mundo? Como entender e comunicar a dor imensa que ocupa toda sua experiência?

Duas dessas mulheres sírias têm cabelos morenos. A terceira, loira, mal chegamos a ver, apenas entrevemos. Elas dialogam entre si. Mas são mesmo diálogos? A uma das jovens, alguém faz perguntas. Mas quem? Presumivelmente é a loira, mas ela está fora do campo de visão, não há certezas.

As respostas vão na mesma direção —a fuga, as guerras na Síria, as mortes, o afastamento da língua e dos costumes, o refúgio imposto.

Cena do filme "Caos", de  Sarah Fattahi
Cena do filme "Caos", de Sarah Fattahi - Divulgação

A mulher mais velha arruma as roupas, os móveis. Em dado momento, ela fala de uma morte, do corpo do filho, encontrado no rio. Essa morte não passou, não acabou —ela vive na mulher, na mãe. O mesmo ocorre com o irmão de Heba, a mais jovem. O sentimento da morte perpetua-se nas pinturas que ela faz, no sentimento de ausência que experimenta. É possível experimentar a própria ausência?

Talvez por isso ela tenha sido recolhida ao hospital, psiquiátrico, presume-se. Queria se matar. Transtorno bipolar? Alguém pergunta se a causa disso não será justamente a paz, a paz infinita do lugar onde vive agora, longe da guerra, longe do seu país, afastada do caos que se tornou a Síria e Oriente Médio.

A mais velha volta à guerra. “Eles violaram tudo em nós.” Eles quem? Muçulmanos, cristãos, americanos, estrangeiros? Mais adiante, a moça loira por fim aparece em cena. Está onde vive agora, na Europa.

Anda com passos firmes, mas a certeza que parece constituí-la não é, afinal, tão certa assim. Quando tenta abrir a porta do seu apartamento, ela não consegue. Luta com as chaves para, por fim, entrar em um espaço vazio, escuro, solitário.

De repente, o ateliê de Heba, a pintora, reaparece, luminoso. Ela recorta, cola, pinta. Vira-se e diz: “acabo de descobrir que este é meu pai, ele se sentava assim”. Em “Caos”, cada observação parece ao mesmo tempo óbvia e incompreensível —como a guerra, como o exílio, como a situação das mulheres na Síria?

Os quadros de Heba são sua viagem, seu sonho. Ela pinta para descobrir o que é pintado. Tudo é mistério, nela e no filme. Parecem os velhos fantasmas das velhas televisões, que perdem sempre a nitidez.

O documentário da síria Sara Fattahi é feito de ódio, silêncio, resignação, desterro, da distância entre o tumultuado ponto de partida e o ponto de chegada, a Europa, calmo, até monótono. Como juntar tudo isso? Não é óbvio nem é certo que tudo se encontre

“Caos” não é um filme para quem espera respostas, mas para quem aceita a navegação imprecisa de suas personagens, distantes e próximas de nós. Um outro que nos habita? É como os contos de Edgar Allan Poe, mas sem ser.

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