Musical ressalta pioneirismo e referências femininas negras de Dona Ivone Lara

Espetáculo estreia nesta sexta (30), no Teatro Sérgio Cardoso

São Paulo

Foi pisando neste chão devagarinho que Yvonne Lara da Costa reescreveu a história da música brasileira. Pioneira na composição de sambas-enredo, fundadora da Império Serrano, bendito fruto entre os homens nas quadras e no boteco, mas também mãe, assistente social e filha de Oxum. 

O lado menos conhecido da compositora agora chega ao palco do teatro Sérgio Cardoso com o musical “Dona Ivone Lara - Um Sorriso Negro”, que estreia nesta sexta (30).

Escavando em biografias no Museu do Samba, do Rio de Janeiro, conversando com a família e bisbilhotando um armário de roupas brilhantes e perfumes, Elisio Lopes, autor e diretor da peça, achou o que procurava: as mulheres, em sua maioria também negras, que inspiraram Dona Ivone a se tornar quem foi.

Nomes como o de Elza Soares, de Clementina de Jesus, da psiquiatra Nise da Silveira —com quem Dona Ivone trabalhou por 30 anos — ou mesmo Zaíra de Oliveira, cantora lírica e professora do coral no colégio em que Yvonne passou a infância, ganham espaço na peça. A influência delas forma, como num quebra-cabeça, sua versão madura. 

Todas elas forjam uma senhora forte, ainda que pise miudinho, que enfrenta com esperteza e bom humor o machismo e o racismo que sofria na rua, no meio artístico e em casa. Dores que expressou ao gravar músicas como a do subtítulo do espetáculo —composta por Adilson Barbado, Jair de Carvalho e 
Jorge Portela— e “Lamento Negro”, de Nelson Ferraz.

Três atrizes se revezam na missão de interpretar a sambista. Pequenina e serelepe, Di Ribeiro interpreta a estudante que aprende a tocar cavaquinho. Heloisa Jorge fica com a fase adulta e passa pela maternidade, enquanto Fernanda Jacob é quem acrescenta o “Dona” ao nome da cantora. 

Na pré-produção da primeira temporada, que estreou em setembro do ano passado no Rio de Janeiro, meses depois da morte da cantora, o pape chegou a ser oferecido a Fabiana Cozza, com quem Dona Ivone tinha estreita relação, a pedido da família Lara. 

A cantora deixou o papel, entretanto, depois de polêmica nas redes sociais por causa de seu tom de pele. Segundo os críticos, Cozza seria “clara” demais para viver Dona Ivone.

Para levar a alma da sambista ao palco, André Lara, neto da cantora —que chegou a integrar o elenco na primeira temporada—, emprestou uma medalhinha, a peruca e até mesmo os óculos que a avó usava, elementos que hoje compõem o figurino.

Parte de uma trilogia idealizada por Jô Santana, que começou com “Cartola – O Mundo É um Moinho”, de 2017, e deve encerrar com Alcione, ainda sem data prevista, a peça traz 20 músicas do repertório da sambista, priorizando grandes sucessos como “Sonho Meu”, “Acreditar”, “Nasci pra Sonhar e Cantar” e alguns hinos que escreveu para levar a Império Serrano ao pódio.

Na trilha, arranjos que lembram mais a Broadway do que as rodas de samba entrecortam versões acústicas, tocadas ao vivo no palco por dois ou três atores, ora só com voz e pandeiro, ora com violão
ou cavaquinho. Mas o ritmo de samba ainda prevalece e não faltam palmas nem coro.

Elementos de dança também permeiam a montagem, especialmente na cena do casamento, construída com rico nível de detalhes. Na cerimônia híbrida de umbanda e catolicismo, que homenageia a espiritualidade sincrética da artista, aparecem orixás e crucifixos. Um corpo de baile simula os movimentos de incorporação de entidades e há cores por todo lado.

O marido, Oscar Costa, também ganha parte na narrativa. Ciumento e conservador, dificulta as saídas de casa, a composição dos sambas, o trabalho e a alegria no Carnaval. Exigida e julgada por não ser “boa mãe”, Dona Ivone se entristece, mas vai compondo.

Sofre também com a perda de Silas Oliveira, poeta e parceiro de composição, que morre jovem, aos 55 anos. Na história real, segundo conta Lopes, era ele quem ia até a casa de Dona Ivone, que não podia sair, para almoçar aos sábados e rascunhar versos que ela cantava lavando a louça. 

Certamente, uma meia centena de bons sambas teria ficado na pia, se não fosse isso. O luto rendeu a canção “Adeus de um Poeta”, já que a sambista tinha o dom de transformar dor em poesia.

No segundo ato, mais voltado à carreira da artista, Dona Ivone aparece na televisão, grava disco, fica famosa. Só a partir dali dá para ver uma face mais conhecida da artista, com as roupas brilhantes e o jeitinho contido de dançar enquanto canta. E fica claro, afinal, a importância retumbante do nome Dona Ivone Lara.

Teatro Sérgio Cardoso - sala Paschoal Carlos Magno - R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, tel. 3288-0136. Qui. a sáb.: 20h. Dom.: 17h. Estreia sex. (30). Até 20/10. Ingr.: R$ 40 a R$ 150. 12 anos. Ingr. p/ ingressorapido.com.br.

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