Saiba como vai ser o novo Studio SP, que reabre as portas em novembro na rua Augusta

Casa de shows deve funcionar por um ano e renasce mirando renovação musical

Alê Youssef posa no palco ainda em construção do Studio SP, que deve reabrir as portas em novembro

Alê Youssef posa no palco ainda em construção do Studio SP, que deve reabrir as portas em novembro Karime Xavier/Folhapress

São Paulo

Na rua Augusta, hoje assolada por placas de aluga-se que fazem parte do rastro da pandemia em São Paulo, o imóvel de número 591 se prepara para iniciar o movimento contrário e abrir portas —velho conhecido da cidade, ele pode ser um indício de luz no fim do túnel da vida noturna paulistana.

Em cerca de dois meses, o Studio SP retomará as atividades no mesmo lugar onde funcionou por cinco de seus oito anos de existência e marcou a noite de São Paulo. Do lado de dentro, por enquanto tudo ainda é um esqueleto a ser preenchido. Mas logo os pedreiros deixarão o espaço, as paredes serão cobertas por lambe-lambes e picho, a marca pensada por GG do grupo Sustos será oficializada atrás do palco, os bares tomarão forma e os equipamentos de som serão instalados.

A iniciativa é tocada por seu fundador e agora ex-secretário de Cultura de São Paulo, Alê Youssef, em parceria com a Heineken —que recentemente investiu em outros espaços paulistanos para reabri-los ou dar fôlego financeiro a eles, como a Casa de Francisca e o Bona. O Studio SP ganhou ainda o reforço na sociedade do presidente do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, Alê Natacci, e de Ronaldo Lemos, colunista da Folha e curador do extinto Tim Festival.

Mas, ao contrário do que muitos esperavam, o retorno da casa é temporário. Ela promete ocupar a agenda paulistana até dezembro do ano que vem.

Em 2013, quando anunciou o fechamento do endereço que reuniu boa parte dos nomes da chamada nova música brasileira, Youssef lembrou, entre outros motivos, a “especulação imobiliária que atingiu o Baixo Augusta”.

Oito anos depois, ele conta que o projeto de retorno do Studio impediu a venda do espaço para uma incorporadora —movimento pelo qual passam outros pontos da capital, como o Viga Espaço Cênico, que foi demolido, e a Mercearia São Pedro, que também pode ser fechada.

“Conseguimos evitar a venda porque tivemos a simpatia da proprietária, que interrompeu a negociação para concretizar esse retorno simbólico do Studio SP no mesmo imóvel”, diz Youssef. “É muito importante ir na contramão desses processos especulativos que acontecem em todos os bairros de tradição boêmia, porque isso pode destruir a memória da cidade. Nós sabemos que a Augusta já sofreu muito com isso e, mesmo em situações muito adversas, consegue renascer."

Para ele, a retomada de um espaço tido como referência da música independente pode funcionar como catalisador para outros pequenos negócios da região em um momento em que a cena começa a sair do marasmo forçado pela Covid. “Não queremos só ser um lugar onde a cultura vai se estabelecer depois da tragédia que viveu na pandemia, com pequenos negócios de música fechando e carreiras abaladas. O Studio pode ser um estímulo para que novos espaços surjam e também um palco da renovação da música brasileira”, diz.

Não seria a primeira vez. No subsolo da mistura de casa de show e balada foram encontrados cartazes antigos com a programação de shows e festas. Na lista aparecem nomes que contaram com um empurrãozinho do espaço naquela época, como Curumin, Mallu Magalhães, Mombojó e Vanguart —o vocalista deste último grupo, Helio Flanders, visitou a obra e deixou “everything has changed, nothing has changed”, ou tudo mudou, nada mudou, escrito na poeira da janela.

O conhecido palco baixo da casa, que agora é reconstruído nos mesmos moldes, recebeu cerca 2.500 apresentações nacionais e internacionais de nomes que passaram ainda por Emicida e Peter Bjorn and John —todos começando sem frescura, com os artistas saindo do camarim, subindo as escadas e atravessando o público em direção à estrutura, numa tradição que será mantida.

“O Studio SP abriu as portas para nós quando éramos apenas uma promessa e, além de nos mostrar para um novo público, permitiu que pudéssemos ter uma troca com artistas que admiramos e tinham mais estrada que nós. Dali surgiram parcerias, participações em shows e noites com ideias fervilhantes nos camarins”, lembra Flanders, o vocalista do Vanguart.

Fachada de 2008 do Studio SP, na rua Augusta, em São Paulo (SP)
Fachada de 2008 do Studio SP, na rua Augusta, em São Paulo (SP) - Robson Ventura/Folhapress

Outra figura clássica da agenda é André Frateschi, que se apresentava quinzenalmente com seu tributo a David Bowie. “Todo mundo passou por lá, Criolo, Céu, Tulipa Ruiz. Aquilo se espalhou pela Augusta e virou um centro de cultura fervilhante”, conta ele. “Acredito que essa volta vai tornar o Studio em um centro nervoso, uma pequena ilha de desordem dentro desse marasmo.”

Segundo Youssef, a principal missão da retomada, ainda que temporária, é manter a reputação do local como um radar de novidades, começando pela noite de abertura, que lançará uma artista. Um dos exercícios da curadoria é pensar em pessoas que teriam passado pela casa se ela tivesse permanecido aberta. “Vamos trazer de volta e de forma atualizada o projeto Cedo e Sentado, que lançou tanta gente. E, ao lado disso, também seremos um local de reinvenção de artistas, de reencontros de bandas”, diz.

Para completar o caldo, o negócio também aproveita a ocasião para celebrar o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 com projetos como a "Roda Antropofágica", tocada pelo famoso bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, que aparecerá na decoração do mezanino e teve o Studio SP como sua primeira sede.

Outra ideia, essa ainda em estudo, é carinhosamente chamada de Studiozinho, e pretende voltar um dos três bares de dentro da casa para a calçada da Augusta, com discotecagem e serviço na rua.

Tudo, é claro, depende da evolução dos casos de Covid-19 nos próximos meses, e a casa ainda acompanha a situação para cravar uma data de abertura.

Se o cronograma do governador João Doria, do PSDB, que prevê a liberação de todos os tipos de eventos para o dia 1º de novembro for mantido, o Studio já será inaugurado nos momentos finais da quarentena em São Paulo. Youssef, no entanto, garante que o espaço seguirá à risca as normas sanitárias e exigirá a comprovação da vacina para quem quiser entrar.

Enquanto o dia não chega, uma leva de artistas que passaram por lá comemora nas redes sociais e já pede um espacinho na agenda para matar as saudades do palco. Daniel Ganjaman, criador da Seleta Coletiva, uma das festas mais famosas da casa, diz que a retomada simboliza um renascimento da noite de São Paulo.

“A gente passou por um trauma muito grande. A volta do Studio traz um pouco mais de autoestima, uma sensação de pertencimento. Ajuda a gente falar ‘que bom, cara, a cidade também é nossa’.”

Ambiente do Studio SP durante festa com música brasileira em 2009
Ambiente do Studio SP durante festa com música brasileira em 2009 - Jefferson Coppola/Folha Imagem

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas

Ver mais

Mais lidas