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Teatro

Peça itinerante faz espectador dar passeio por São Paulo em carro de aplicativo

'Estilhaços de Janela Fervem no Céu da Minha Boca' mistura ficção com o dia a dia da capital

São Paulo

Antes mesmo de sair de casa, o espectador já começa a receber mensagens no celular. Nelas, surge um convite para a inauguração de um novo empreendimento imobiliário no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Logo um motorista de aplicativo aparece em seu endereço a para levá-lo até o local desse evento.

Pode ser estranho, mas tudo isso faz parte da peça itinerante “Estilhaços de Janela Fervem no Céu da Minha Boca”, montagem do coletivo A Digna que estreia neste sábado, dia 9, e que brinca com os limites entre ficção e realidade ao colocar a capital paulista como personagem central.

Dirigida por Eliana Monteiro, o espetáculo ocorre grande parte do tempo dentro do carro de aplicativo. A diretora explica que a ideia de escalar 12 motoristas reais para compor a peça surgiu por causa da pandemia. “Era o único jeito de trazer o público e a cidade para o meio da história”, diz ela. A viagem pode ser feita na companhia de outra pessoa, desde que ela já conviva com o espectador e que ambos respeitem os protocolos de segurança contra a Covid-19.

Durante o caminho para conhecer o fictício bairro planejado Ilhas dos Sonhos Nova Barra Funda, cenas que compõem o espetáculo se fundem aos acontecimentos latentes da cidade. Um grupo de cinco ciclistas entregadoras, que fazem parte do coletivo Señoritas Courier, se une ao elenco para trazer imagens da precarização das relações de trabalho.

As cenas dispersas se conectam com uma estação de rádio fictícia, sintonizada no carro, que apresenta uma playlist com músicas como “Comportamento Geral” na voz de Elza Soares, cuja letra contrasta com a propaganda do novo empreendimento. Surgem também entrevistas com personagens que moram no bairro do espetáculo.

O espectador, que é uma mistura de plateia e passageiro, é notificado então pelo motorista sobre o atropelamento de um ciclista. Parte da peça? Vida real? Uma maneira de a dramaturgia evidenciar as diversas formas de violência na cidade, no trânsito e as várias discriminações presentes em São Paulo? As fronteiras entre o real e a ficção se borram ainda mais quando quem dirige o carro começa a contar da sua própria vida nos intervalos do roteiro.

Com uma leve distração que as agitadas vias de São Paulo são capazes de proporcionar, porém, o público pode perder alguns elementos que compõem a trama. “O mais importante era que o espectador não perdesse o fio da história, caso contrário seria só uma volta de Uber, aí não teria por que fazermos isso”, diz Monteiro. Por isso, o motorista, além de prestar atenção no transito, vai dando alguns toques para o passageiro sobre o que está acontecendo na peça e no que ele deve jogar seu olhar.

um homem deitado no chão com bicicletas caídas ao redor
Cena ficcional em que ciclista é atropelado em 'Estilhaços de Janela Fervem no Céu da Minha Boca' - Divulgação

Mas a imprevisibilidade paulistana se impõe e faz com que seja difícil a sincronização dos 12 carros para que eles cheguem juntos até o destino final, que é uma praça na Barra Funda, cercada por prédios. A paisagem marca um dos tópicos da peça: a gentrificação.

Ao desembarcar, o público é levado até uma tenda para assistir a cenas de brigas entre os moradores do tal novo empreendimento. Áudios são reproduzidos por rádio em celulares pequenos e antigos que as pessoas parecem ter desaprendido a usar.

Quem está acostumado a um teatro em que tudo é feito junto pode se surpreender com os estilhaços da narrativa, que vão se juntando aos poucos. As separações da cidade são assim. A gente está tentando conectar coisas que estão dispersas, trazer pessoas para verem outras possibilidades de conexão”, fala Victor Nóvoa, que faz parte da companhia.

No dia em que a reportagem assistiu a um ensaio da peça, em uma das cenas finais em que um personagem fala sobre o acidente do jovem entregador de aplicativo —que, afinal, era parte do enredo do espetáculo—, um rapaz de bicicleta vestindo uma mochila de app de delivery passou devagar por onde estavam os atores, que interpretavam entregadores como ele, e parou para observar a cena. Ficção e realidade se misturaram.

Estilhaços de Janela Fervem no Céu da Minha Boca

  • Quando de 9 de outubro a 28 de novembro – Sábados, domingos e feriados às 18h30
  • Preço R$20 e R$10 (meia-entrada)
  • Classificação 12 anos
  • Autor Victor Nóvoa
  • Elenco Ana Vitória Bella, Helena Cardoso e Ícaro Rodrigues
  • Direção Eliana Monteiro
  • Ingressos e vendas https://adigna.com

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