'Era o Hotel Cambridge' retrata ocupação no centro de SP

Não fosse por José Dumont e Suely Franco, as cenas iniciais de "Era um Hotel Cambridge" podem passar a impressão de que o filme se trata de um documentário puro. Como um espectador voyeur, a câmera capta a rotina dos moradores do prédio ocupado que dá nome ao longa.

Houve quem se confundisse mesmo: o filme foi recusado em alguns festivais estrangeiros porque não sabiam em que categoria colocá-lo, conta a diretora, Eliane Caffé.

"É ficção pois todos no filme estão representando, até mesmo quando estão representando a si mesmos", diz. O filme passa na Mostra de SP.

Cena de 'Era o Hotel Cambridge'
Cena de 'Era o Hotel Cambridge' - Divulgação


Seu objetivo inicial era abordar o tema dos refugiados em São Paulo, mas o leque se abriu na pesquisa de campo: ela descobriu os movimentos de luta por moradia.

Estão todos na história, ambientada às vésperas de uma reintegração de posse: palestinos, congoleses, nordestinos, colombianos. Quem organiza tudo é a líder Carmen Silva, que interpreta a si mesma. Foi Carmen quem encampou a ideia de Caffé de filmar um longa no imóvel ocupado.

Ao longo de quase dois anos, a diretora zanzou pelo prédio do Hotel Cambridge, na região central de São Paulo, cujos "corredores mais parecem ruas movimentadas", segundo descreve a diretora.

Os moradores participaram de oficinas. "Os personagens foram surgindo naturalmente, reciclando o roteiro", diz Caffé. Os atores Dumont e Suely vieram nesse embalo.

Um dos palestinos e um dos congoleses se deixaram ser filmados enquanto conversam, pela internet, com parentes nos países de origem. De Gaza, uma mulher conta as agruras com mísseis israelenses. Do Congo, relatos sobre exploração e guerra civil.

"Era o Hotel Cambridge" é fruto da fusão que embaralha o ficcional e o documentário. Quando policiais entram em cena correndo e atirando, não há dúvidas de que, a partir dali, o retrato é documental.

A diretora vê semelhanças entre esse longa e a sua obra mais conhecida, "Narradores de Javé" (2003), sobre moradores que resolvem preservar a história de seu vilarejo quando a construção de uma usina ameaça submergi-lo.

"Os dois filmes têm estrutura épica", diz a diretora, formada em psicologia. "As ações não estão centradas num protagonista. Há uma polifonia, uma passagem de bastão. É um cinema que se abre para a criação coletiva."

Confira toda a programação no site do "Guia" da Mostra.


ERA O HOTEL CAMBRIDGE
DIREÇÃO
Eliane Caffé
ELENCO José Dumont, Suely Franco
PRODUÇÃO Brasil, 2016, 12 anos
MOSTRA qui (27), às 15h, no CineSesc; ter. (1º), às 18h10, no Espaço Itaú —Frei Caneca

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