No Dia Internacional da Mulher, roteiro sugere 13 balcões comandados por elas

Presença feminina atrás dos balcões de São Paulo tem ganhado força nos últimos anos

Michelly Rossi, chef de bar do Fel, prepara o drinque Dandara,  que ela criou para fazer parte do projeto #eubebosozinha

Michelly Rossi, chef de bar do Fel, prepara o drinque Dandara, que ela criou para fazer parte do projeto #eubebosozinha Gabriel Cabral/Folhapress

Marina Consiglio
São Paulo

Com alguns dos versos mais boêmios do cancioneiro nacional, o samba “Eu Bebo Sim” ficou famoso, justamente, na voz de uma mulher, Elizeth Cardoso, nos anos 1970.

Uma surpresa subversiva, considerando que até hoje bares e drinques fazem parte de um universo predominantemente masculino —e machista.

Mas, mesmo que ainda tímida, a presença feminina atrás dos balcões da cidade tem ganhado força nos últimos anos. Se há uma década eram pouquíssimas as mulheres que agitavam suas coqueteleiras, hoje existem bares pensados para elas. É o caso do novíssimo Das, na Vila Buarque, uma casa criada por mulheres e com equipe e público predominantemente feminino.

Já o Fel, apontado como melhor bar de 2018 pelo júri do Guia, não nasceu com esta proposta, mas tem equipe feminina. “O público feminino e LGBT se sente mais à vontade”, comenta Michelly Rossi, chefe de bar da casa.

Com o aumento do público e da mão de obra feminina nos bares fica cada vez mais retrógrada a ideia de “bebida de mulher” —sabores adocicados e florais pensados para agradar aquilo que se imagina ser o delicado paladar delas.

“Não se divide paladar por gênero”, afirma Rossi. Já Renata Adoración, chefe de bar do Fitó, diz que aconselha as clientes a experimentar e “não seguir aquilo o que ditam a nós, para que possamos escolher e nos surpreender”.

Por um Dia Internacional da Mulher sem flores ou bombons, o roteiro a seguir indica 13 bares de comando feminino e coquetéis dos mais variados para brindar pela cidade.


Das
Além de ser um bar de coquetelaria e petiscos com preços amigáveis, a casa das sócias Raquel Braga e Nina Veloso (também chefe de bar) é, também, um espaço feito por e para mulheres. Da execução do projeto, marcenaria, contabilidade à equipe que está no dia a dia da casa, tudo tem mão feminina. Há, inclusive, uma lojinha com ilustrações, livros e camisetas. A carta tem drinques clássicos e destaca uma seção de coquetéis assinados por mulheres —a exemplo do hanky panky, de Ada Coleman. Para comemorar o Dia da Mulher, nesta sexta (8) e sábado (9), todo o lucro arrecadado com a venda do coquetel Queen Bey (R$ 23), além da contribuição sugerida aos homens estiverem no bar, será revertido para uma instituição de apoio a mulheres ainda não definida.
R. Fortunato, 133, Vila Buarque, região central, s/ tel. 50 pessoas. Ter. a sáb.: 19h às 24h. 

Bar dos Arcos
Escondido no subterrâneo do Theatro Municipal, o bar foi uma aguardada inauguração do último ano. O comando é de Facundo Guerra, conhecido empresário de lugares hypados da noite de São Paulo —Vegas, Riviera, Cine Joia e Mirante 9 de Julho já passaram por suas mãos—, mas a coquetelaria é feminina. Quem assina a carta é a argentina Chula Barmaid. São 12 drinques autorais, divididos pelo grau alcóolico, e batizados com nomes de óperas e da música clássica. Uma sugestão para começar é o Madame Butterfly, com saquê, Cynar, hortelã, xarope de grapefruit e ginger beer (R$ 35).
Pça. Ramos de Azevedo, s/ nº, República, região central, s/ tel. 100 pessoas. Ter. a sáb.: 19h30 às 2h30. Não aceita tíquetes.  

Bar do Beco
O beco ao qual o nome do bar se refere é o colorido Beco do Batman, pertinho da casa. Descontraído e com mesas coletivas ao ar livre, a casa tem duas mulheres agitando as coqueteleiras —Juliana Braga, chefe do bar, e Camila Carlos. A carta, assinada pelas duas e também por Lais Moreira e Márcio Silva (Guilhotina). Uma dica da casa para bebericar é o Beco Punch: mix de rum, rum com frutas vermelhas e hibisco, limão-taiti, folhas de hortelã e vinho espumante seco (R$ 29).
R. Aspicuelta, 17, Vila Madalena, região oeste, tel. 3031-0465. 200 lugares. Qua. e qui.: 17h às 24h. Sex.: 15h às 24h. Sáb.: 12h às 24h. Dom.: 12h às 22h. 

Biri Nait
Uma das primeiras bartenders mulheres de destaque na cidade, Talita Simões já esteve atrás de muitos balcões e assina cartas de outros tantos —um exemplo recente é o Moma Mia, no Itaim Bibi. Neste bar de luz baixa e música alta no Baixo Pinheiros, ela também é sócia. Destaque na seleção de gins-tônica,  o Harry também feito com laranja Kinkan, xarope de gengibre, tomilho e suco de limão.
R. Cunha Gago, 864, Pinheiros, região oeste, tel. 3032-9028. 150 lugares. Qui.: a partir das 19h. Sex. e sáb.: a partir das 21h. Não aceita tíquetes.

Espaço 13
Bem em frente à praça Dom Orione, na região do Bixiga, está este local multiuso, que reúne barbearia, estúdio de tatuagem, espaço para shows e, o que importa aqui, um bom bar de drinques. À frente do balcão está Stephanie Marinkovic, que prepara receitas clássicas e próprias. Nesta sexta (8), ela prepara o drinque Frida no balcão do Negroni 
R. Treze de Maio, 798, Bela Vista, região central, tel. 2845-1300. 60 lugares. Qua. a sex.: 18h às 0h30. Sáb.: 15h às 0h30. Dom.: 11h às 18h. Não aceita tíquetes.

Espaço Zebra
Certamente um dos lugares mais charmosos da capital, o Zebra é a casa de Neli Pereira e funciona escondido embaixo do ateliê do artista Renato Larini. O horário é restrito —a casa só abre às sextas e aos sábados e, mesmo assim, é sempre bom checar antes—, mas o trabalho dela, não. Entre suas especialidades estão as garrafadas, infusões de plantas, cascas e raízes brasileiras. Por ali, itens como catuaba, cataia e jurubeba, todas produzidas pela bartender, servem de base para drinques.
R. Mj. Diogo, 237, Bela Vista, região central, tel. 3105-5171. 50 lugares. Qui. e sex.: 19h às 24h. Não aceita tíquetes.

Estoque Bar
Aberto no fim de 2018, o Low BBQ é uma churrascaria ao estilo americano que oferece comes e bebes a bom custo-benefício ao público. Há algumas semanas, o local passou a abrigar Estoque, bar cuja carta é assinada por Alice Guedes (Guarita). Com abertura oficial prevista para esta quarta (13), a casa tem a proposta de combinar as bebidas com as carnes defumadas do menu do Low, que fica disponível ali. A carta tem clássicos, caso do boulevadier (R$ 29) e New York Sour (R$ 27), e receitas autorais, como o Spice Soda (R$ 28), feito com uísque com infusão de morango, limões e soda artesanal de gengibre com especiarias.
R. dos Pinheiros, 1.235, Pinheiros, região oeste, tel. 3042-0001. 30 lugares. Qua. e qui.: 19h às 24h. Sex. e sáb.: 19h à 1h. Não aceita tíquetes.

Eugênia Café Bar
O nome do bar é uma homenagem à jornalista, atriz e diretora de teatro Eugênia Álvaro Moreyra (1898-1948), pioneira do feminismo no Brasil e indica sua proposta: destacar o protagonismo feminino. Ele aparece na equipe e na programação do local, que é praticamente um espaço cultural —também abriga palco, biblioteca, exposições e debates. Recentemente, Paola Menezes (ex-Estepe) assumiu o comando do bar. O menu tem drinques como o Penélope, feito com gim infuso em clitorea ternatea, uma flor azulada, limão-taiti e xarope artesanal de menta (R$ 30).
R. Con. Eugênio Leite, 953, Pinheiros, região oeste, tel. 3064-1352. 70 pessoas. Ter. a qui.: 17h às 23h30. Sex. e sáb.: 18h à 1h30. Não aceita tíquetes.

Fel
Fica aos pés do Copan o bar de coquetelaria clássica comandado por Michelly Rossi, que dividiu o pódio de melhor novo bar de 2018 com o Sede 261, wine-bar das das sommelières Daniela Bravin e Cassia Campos, no Guia. Ao som de rock e em ambiente cool e sofisticado, com balcão de textura de mármore e abajures redondos que lembram bolas de cristal ou luas cheias, ela comanda um time de bartenders mulheres que preparam coquetéis tido como esquecidos. Uma das receitas que está na carta, contudo, é bem contemporânea. Criação de Rossi, o Dandara é um coquetel feito com rum, vinho, Amaro Averna, vinagre balsâmico e bitter de laranja (R$ 37), e é o símbolo do projeto Eu Bebo Sozinha (leia abaixo). 
Av. Ipiranga, 200, lj. 69, República, região central, tel. 3237-2215. 25 lugares. Seg. a qui.: 19h à 0h45. Sex. e sáb.: 19h à 1h45. Não aceita tíquetes. Drinque Monkey Gland: R$ 35.

Fitó
Natural do Ceará, Cafira Foz, a Fitó, cresceu no Piauí —e é de lá que ela traz as referências para a cozinha de seu restaurante. A equipe do local é toda feminina e o bar da casa é de responsabilidade de Renata Adoración, que renovou a carta com drinques inspirados em mulheres icônicas para o feminismo. Um deles, o Dona Genu, leva cachaça envelhecida no barril de castanheira, oximel (composto de água, mel e vinagre), Licor 43, cajuína gaseificada, canela maçaricada e gelo britado (R$ 28). A mulher que inspirou a receita, Maria Genoveva (1927-2015), ou Genu Moraes, foi uma jornalista e escritora piauiense.
R. Card. Arcoverde, 2.773, Pinheiros, região oeste, tel. 3032-0963. 90 lugares. Seg.: 12h às 15h. Ter. a sex.: 12h às 15h e 19h às 23h30. Sáb.: 12h30 às 16h30 e 20h às 23h30. Dom.: 12h30 às 17h. 

Peixe Voraz
Este bar com clima de inferninho e pista de dança tem coquetéis assinados por Fran Moreira, sócia da casa, ex-Flamingo e responsável pela antiga carta do Fitó (leia nesta página). Atualmente, a carta destaca receitas de spritz e de gins-tônicas feitos com frutas, a exemplo do com uva e shissô (R$ 28).
R. Br. de Tatuí, 223, Vila Buarque, região central, tel. 96373-2110. 30 lugares. Qua. a sáb.: 20h à 0h30. Cerveja Stella Artois - 275 ml: R$ 10.  

Presidenta - Bar e Espaço Cultural
Neste espaço muito frequentado pelo povo do teatro, quem manda é Marcia Chiochetti, a Presidenta, ao lado de sua filha, Camila Possolo. O destaque é a programação cultural, na qual rola um pouco de tudo, a exemplo de saraus, encenações, shows e, principalmente, festas. O bar cumpre a função, com bebidas como caipirinhas, batidas e gins-tônica.
R. Augusta, 335, Consolação, região central, tel. 98909-5876. 200 pessoas. Ter. a dom.: a partir das 20h. Não aceita tíquetes. Couv. art.: R$ 10 a R$ 30. Cerveja Heineken - 600 ml: R$ 14.  

Volcano
A casa de Tatiana Azevedo e Bruna Ary está mais para um café, com menu de comes, brunch e bebidas quentes. Mas o clima underground —evidenciado pela programação de músicos independentes— pede uma carta de drinques. Além de clássicos, como old fashioned (R$ 24)e negroni (R$ 22), elas preparam criações como o Diabólica (gim-tônica com hibisco; R$ 24) e o Alucynar (Cynar, mate e limão; R$ 16).
R. Min. Ferreira Alves, 686, Perdizes, região oeste, tel. 3871-5268. 32 lugares. Ter. a sex.: 12h às 21h. Sáb.: 10h às 19h. Dom.: 10h às 17h. 


 

Especial

Negroni

No Baixo Pinheiros, o bar de Chris Carijó dedicado ao drinque centenário e suas variações terá uma bebida especial à venda apenas nesta sexta (8). Criado em parceria com Stephanie Marinkovic (Espaço 13; leia na pág. 8), o Frida tem rum, gim, vermute seco, licor de café e crispy de Parma.
R. Pe. Carvalho, 30, Pinheiros, região oeste, tel. 2337-4855. 70 lugares. Seg. a qua.: 18h às 24h. Qui. a sáb.: 18h à 1h. Dom.: 18h às 23h. Não aceita tíquetes.

Eu Bebo Sozinha
Criado por Michelly Rossi (Fel), o projeto tem como objetivo criar uma rede de apoio para mulheres no bar —as que trabalham e as que frequentam. Entre os pontos discutidos, estão as dificuldades de entrar em um mercado dominado por homens, conscientização das consumidoras e preparar as equipes das casas. O drinque-símbolo da campanha é o Dandara. Relatos de bartenders e receitas criadas por elas podem ser vistas no perfil @eubebosozinha do Instagram.

Drinque feito por Dandara, responsável pelo projeto #eubebosozinha
Drinque feito por Dandara, responsável pelo projeto #eubebosozinha - Gabriel Cabral/Folhapress

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