Filme de diretores estreantes, 'O Pequeno Mal' se destaca na programação nacional da Mostra

Com tom enigmático, longa concilia melancolia visual e trilha sonora com faixa dos Smiths

Sérgio Alpendre

Três personagens à deriva na São Paulo de 2007. Esse é “O Pequeno Mal”, curioso filme autoral dos jovens Lucas Camargo de Barros e Nicolas Thomé Zetune.

Janaína (Janaína Afhonso) sofre de epilepsia. Ela recebe os cuidados de seu grande amigo João (João Paulo Bienemann). João tem um namorado, que disputa a atenção dele com Janaína. Esta, por sua vez, envolve-se com um homem mais velho.

A mais bela música dos Smiths, “Last Night I Dreamt that Somebody Loved Me”, de 1987, ecoa na trilha sonora por três vezes, dando o tom melancólico deste longa intimista. Tom reforçado pela citação explícita a “Tva Människor” (1945), de Carl T. Dreyer, passado em um único cômodo. Saber conciliar a melancolia visual com a sonora é um dos maiores trunfos do filme, mas não o único.

Se muitas vezes as falas soam artificiais, sem que haja uma verdadeira recusa do naturalismo, ainda assim os atores conseguem transmitir o incômodo com as situações e as fraturas de seus universos.

Ao situar a trama com um recuo de mais de dez anos, associando-a ligeiramente ao acidente real ocorrido na construção de uma estação de metrô em Pinheiros, bairro da capital paulista, os diretores enfraquecem uma possível associação entre o mal-estar sensível na tela e o atual momento do Brasil.

Existe ainda o tom enigmático, com algumas coisas que não se explicam. Esse pode ser considerado outro trunfo, já que a opção não nos afasta dos personagens em momento algum. Talvez aconteça o contrário: é pela estranheza que nos interessamos por eles.

Que esse enigma seja construído por diretores estreantes é um alento. Ao mesmo tempo explica algumas opções fáceis, que não chegam a prejudicar o resultado.

Veja salas e horários.

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