Vencedor do Palma de Ouro, 'Assunto de Família' é aposta segura da Mostra

Para crítico, família retratada em ambiente de acúmulo e desordem é microcosmo de algo maior, como o mundo

Cássio Starling Carlos
São Paulo

A conquista da Palma de Ouro no Festival de Cannes valida “Assunto de Família” como uma das apostas seguras da Mostra. Mas qual o peso ainda do principal prêmio da mais estimada competição do cinema de autor?

Apesar de ter provocado menos questionamentos que a Palma de 2017 para “The Square”, a escolha do júri foi interpretada como um gesto de reconhecimento do conjunto da obra do japonês Hirokazu Kore-eda.

Visto no contexto sempre tumultuoso de festivais, “Assunto de Família” pode parecer discreto demais ou pouco provocativo para merecer o prêmio. O olhar terno para o cotidiano da família, objeto recorrente na filmografia do diretor japonês, pode ser confundido com “mais do mesmo”.

Parte da crítica interpretou a decisão como fiel à lógica de outras escolhas recentes, propensas a valorizar menos a originalidade estética que a pertinência temática dos filmes.

Esse tipo de juízo, contudo, dissolve-se à medida que somos absorvidos pela armadilha que Kore-eda monta. O microcosmo de “Assunto de Família” sinaliza, como nos filmes de Yasujiro Ozu, a casa como reflexo de algo maior, talvez do mundo. O ambiente ali é de acúmulo e desordem, nunca se sabe bem a natureza dos laços entre os adultos e as crianças. Uma garotinha surge do nada e é assimilada sem questionamentos. Pai e mãe sugam a renda da pensão da avó, enquanto esta tira proveito da piedade alheia.

Num primeiro momento, a malandragem que rege a vida cotidiana dessa família que vive à base de pequenos furtos em lojas soa como anedota. Seus gestos ecoam a prática de ilegalidades como algo corriqueiro, como parte da sobrevivência. Aos poucos, qualquer golpe passa a ser “normal”.

Assim, Kore-eda afirma seu domínio como criador de fábulas corrosivas, sua habilidade para aproveitar nossa conivência até não ser mais possível escapar. Quando chega a virada, tomamos uma bela bofetada.

Veja salas e horários.

 

Premiados em cartaz na Mostra

Berlim
"Não me Toque", de Adina Pintilie (Urso de Ouro)

"Retablo", de Alvaro Delgado Aparicio (Urso de Cristal)

"O Rosto", de Malgorzata Szumowska (Grande Prêmio do Júri)

Cannes
"Assunto de Família", de Hirokazu Kore-eda (Palma de Ouro)

"Capernaum", de Nadine Labaki (prêmio do júri)

"Infiltrado na Klan", de Spike Lee (Grande Prêmio do Júri)

"3 Faces", de Jafar Panahi (melhor roteiro)

"Guerra Fria", de Pawel Pawlikowski (melhor direção)

Veneza
"Roma", de Alfonso Cuarón (Leão de Ouro)

Sundance
"O Mau Exemplo de Cameron Post", de Desiree Akhavan (Grande Prêmio do Júri)

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