Conheça o Espaço Wema, projeto que entrega comida típica africana por delivery em SP

Receitas são preparadas com o objetivo de promover a cultura do continente

São Paulo

Os saberes e a história de um povo podem ser transmitidos de muitas formas, e uma delas é pela culinária. Foi por meio dela que Hortense Mbuyi, imigrante da República Democrática do Congo, escolheu promover as culturas do continente africano, criando o Espaço Wema.

Mbuyi é advogada e exerceu a profissão em seu país por 15 anos. Há seis anos, quando chegou ao Brasil, se deparou com uma grande burocracia para revalidar seu diploma e advogar. Foi aí que, para sustentar a família, ela pensou em sua outra vocação: cozinhar.

Mais do que servir comida, a congolesa queria servir conhecimento e tradição em seus pratos no Espaço Wema, palavra que significa bondade em suaíli, língua falada na parte leste da África . "Eu pensei em trabalhar na promoção da cultura africana, que senti ser quase desconhecida aqui", disse.

Uma mulher com máscara e turbante cozinhando
Hortense Mbuyi, imigrande da R.D. Congo e idealizadora do Espaço Wema - @espacowema no Instagram

O seu desejo era que os pratos típicos do continente onde nasceu e que influenciou na formação da sociedade brasileira se tornassem comuns no dia-a-dia das pessoas por aqui. Mas abrir um restaurante não era uma possibilidade viável, pois ela acreditava que teria dificuldade para manter uma clientela fixa e lidar com as despesas.

Uma saída encontrada por Mbuyi foi expor sua comida em eventos e aceitar encomendas. Com a pandemia e a paralisação das atividades, ficou difícil divulgar seu trabalho, ao mesmo tempo que ela conseguiu um lugar para estruturar o projeto.

Mbuyi e a família tiveram de se mudar para a Ocupação 9 de julho, na região central de São Paulo, onde existe uma cozinha comunitária. Lá, ela conseguiu estruturar o Espaço Wema, preparando pratos para entrega. A equipe é formada por mais duas pessoas e ajudantes, a depender da quantidade de trabalho. Os jantares são esporádicos, mas ocorrem sempre às quartas-feiras —o próximo está agendado para o dia 8 de dezembro. A programação fica disponível no Instagram do projeto (@espacowema).

A promoção da cultura africana, proposta por Mbuyi, não é algo homogêneo. Inclusive, ela afirma que não existe de fato uma única cultura. "A África, além de ser um continente, é formada por etnias, reinos e tribos. E cada um desses tem suas particularidades da cultura", diz. É por esse motivo que ela faz uma rodada de pratos e cozinheiros a cada jantar. Outros imigrantes e refugiados que vieram do continente se juntam a ela na cozinha.

Militante ativa, ela é hoje presidente do Conselho Municipal dos Imigrantes em São Paulo, o que a faz com que ela tenha contato com organizações e comunidades de imigrantes. Já cozinharam no Espaço Wema pessoas do Senegal, África do Sul, Angola, Costa do Marfim e Marrocos e cada uma delas, a partir de pratos típicos, traz a história de seu país.

A escolha da receita varia de acordo com a programação daquela semana e também com os ingredientes encontrados com mais facilidade por aqui. Já foram apresentados, por exemplo, pratos da etnia Luba, presente na República Democrática do Congo, que leva frango com uma folha da família da alfavaca, um ingrediente aromático. O preparo é servido em rituais ou em cerimônias, como casamentos.

A etnia Bembe, no leste do Congo, foi representada com uma receita que combina folha de mandioca com repolho, milho verde e farinha de amendoim. A etnia Mangala, por sua vez, apareceu no menu com um prato que reúne feijão branco com peixe bagre defumado, acompanhado de arroz ou banana-da-terra. O loso ya muamba, que combina com legumes refogados, arroz com creme de amendoim é servido com frequência. Vale ressaltar todas as receitas possuem variações veganas. Cada prato custa R$ 35 mais a taxa de entrega.

Alguns ingredientes, apesar de existirem aqui, não são muito consumidos pelos brasileiros. Um exemplo é a folha de batata-doce, que não são encontradas no mercado, mas que Mbuyi usa em receitas. Assim como o bagre defumado ou o bacalhau de tilápia, que irão aparecer em breve no Wema.

Ela planeja, ainda, oferecer cursos e oficinas de gastronomia no Espaço Wema. "Quero não só fazer o delivery, mas também que os brasileiros aprendam a diversificar os seus pratos", afirma.

Além da gastronomia, dança e moda também devem ganhar espaço no projeto em breve. "Espero que dentro desse espaço seja representada não só a cultura africana, mas a africanidade em todas as áreas", diz.


Espaço Wema

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