"Re:Board" sai de cartaz nesta sexta; leia entrevista com o curador

- Crédito: Divulgação

Nesta sexta-feira (28), a mostra "Re:Board", que expõe shapes de artistas como Billy Argel e Speto e exibe o documentário homônimo de Alexandre "Sesper" Cruz, sai da galeria Matilha Cultural, no centro paulistano. Quem ainda não visitou a exposição, que retrata a história do skate no Brasil, tem até as 20h de sexta-feira para conferi-la. A galeria abre às 11h.

Alexandre, que adotou o apelido Sesper e é mais conhecido como o Farofa, da banda Garage Fuzz, recebeu o Guia da Folha Online para contar sobre a relação do documentário "Re:Board" com a exposição e como decidiu investir na arte dos shapes para skates.

Os mais de 200 shapes expostos pertencem a artistas e colecionadores, e ilustram o documentário. Os suportes concentram-se no andar inferior da galeria, organizados cronologicamente. Billy Argel tem uma parede exclusiva, com shapes dos anos 70, quando andava na Wave Park, depois começam os trabalhos que ele fez para a Urgh (marca do segmento). Na outra parede, aparece a transição para os anos 90 --há obras de Magoo e Speto-- e a arte feita a partir dos anos 2000, por Felipe Mota, Gardenal, Ratão.

No piso superior, há mais shapes, outros de Billy e também de Sesper. O documentário teve exibição durante a mostra, em horários específicos. Saiba mais sobre "Re:Board" e Sesper, o artista.
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O DOCUMENTÁRIO

Folha Online - De onde surgiu essa ideia de trabalhar com vídeo?
Sesper - Em 2002 eu comecei a trabalhar com vídeo de skate. O sonho de um designer ou de um cara que trabalhava com arte nos anos 80 era trampar em revista. Na época existiam várias: "Via Animal", "Chiclete com Banana", "Yeah!", revistas de skate e até de surf. Era legal trabalhar uma ou duas edições, depois que você via como era apertado o deadline dos caras você queria se enforcar. Aí perde a poesia. A gente até continuava trabalhando, porque tinha que se manter, mas o vídeo foi uma forma que encontramos de voltar a sentir a poesia, porque era um formato novo. Não tinha nenhum vínculo com estética, era possível fazer em preto e branco, colocar a manobra ao contrário, tudo era livre. Então, foi nesse período do vídeo, de 2002 a 2006, que começou a mudança. E o "Re:Board" veio com isso. Quando começamos a pesquisar o trabalho do Billy [Argel], a ideia era fazer um livro. Mas íamos gastar uma grana, e seria uma logística difícil distribuir um livro bitelo. E tinha a questão de as pessoas passarem muito mais tempo na frente do computador do que lendo um livro. Aí pensei que, se fizéssemos um vídeo, a compreensão do conteúdo seria mais rápida. Filmei um período do Billy, de três anos atrás.

Folha Online - E como foi a seleção do conteúdo?
Sesper - A gente tinha o começo, com o Billy Argel, e o fim, que era com o Fabio Amade --ele trabalha com reciclagem de shape. Durante os dois anos seguintes, eu fui preenchendo com artistas que eu sabia que vinham desenvolvendo a arte no suporte há uma década, alguns novos que pegaram o que viram nos anos 80 e 90 e adaptaram para o formato atual de shape. Mesmo porque não tinha como pesquisar todos os shapes do Brasil. É um mercado que se sustentou por mais de 30 anos. Com certeza ia faltar coisa e não tinha como colocar tudo isso em um documentário de uma hora. Então começamos a pesquisar mais a relação do artista com o skate. Por que eles desenhavam, por que uma ilustração de shape custava R$ 100, por que o cara continua fazendo isso, se é por prazer...

Folha Online - Onde você soltou o documentário quando ele ficou pronto?
Sesper - Ele existia em um formato que não é o que passamos aqui na Matilha [galeria]. Era um formato só com promos dos artistas. Fiz 30 cópias, levei para os Estados Unidos e comecei a distribuir para pessoas que estavam no vídeo. Entrevistei alguns skatistas que eram brasileiros e estavam morando na Califórnia. Nesse período, teve gente que não deu a mínima, nem assistiu e estava ligado à história. Sei que, se bobear, o cara deve ter assistido na semana passada. O "Re:Board" ficou seis meses parado, no fim de 2008. Não porque eu tinha desacreditado, mas porque o formato não estava ainda rolando. Quando o pessoal no exterior assistiu os promos, começaram a indicar em sites. Só então o pessoal do Brasil começou a se ligar, e isso foi dando uma empolgação. Quando os skatistas daqui começaram a ver a arte nacional --"quem são esses caras cravando esses shapes?"-- começaram a prestar mais atenção, porque a referência que eles tinham era do que era feito lá fora. Foi depois que voltamos dos EUA que finalizamos tudo. A ideia nunca foi vender, a ideia é disponibilizá-lo online para baixar, para assistir no site.

Folha Online - Ele funciona como um documento de pesquisa mesmo...
Sesper - Sim, porque tínhamos uma lacuna. Estava tudo solto. Por exemplo, você faz uma pesquisa sobre os artistas de skate da Europa e dos Estados Unidos, onde esse mercado é mais desenvolvido, você consegue enxergar o processo, a história. No Brasil, quando a gente pesquisa, até encontramos, mas não vemos o material do artista, o trabalho que ele fez nos shapes, que é um trabalho rico. O Billy Argel, por exemplo, fez a década de 80 quase toda e tinha tudo guardado. Trazer isso para o público é legal, principalmente para quem consumia isso nos anos 80. Tem cara hoje que é advogado e quando encontra o Billy fica todo empolgado. 'Meu, você é o cara daqueles desenhos!' E foi uma época forte no país, foi um período curto, de três anos, de 1987 a 1990, mas quem viveu aquele período não esquece. A evolução aconteceu do nada, em pouco tempo o que era feito aqui estava pau a pau com o que estava sendo feito nos Estados Unidos. Depois do Collor, tudo voltou a ser o que era em 1985.

Folha Online - Nessa época que você cita, as marcas copiavam o que saía nos Estados Unidos?
Sesper - Naquela época existiam quatro marcas tops americanas que eram feitas aqui descaradamente. A ponto de vir um atleta da marca legítima e entregarem a ele um cartão dos "representantes" da marca aqui no Brasil. Isso para a gente sempre foi incômodo. A mentalidade da galera fora do Brasil ainda é essa, que o mercado do Brasil era chupado, copiado dos EUA. Infelizmente, eles pensam isso com razão. Hoje em dia tem a Volcom, a Element e diversas outras marcas americanas que ainda têm que lidar com a pirataria. Nossa ideia, com o documentário, é mostrar para o exterior que existiam as marcas, como a Lifestyle, a Urgh!, a Chaos, nos anos 90 a Drop Dead, a Tylon, agora no ano 2000 a Gardenal, a HC, que trabalharam o artista, o gráfico original, tiveram a preocupação de ter shape assinado de atleta. Teve uma época que o lance do skate misturou com a "street wear" e isso complicou o conceito. Claro que, no começo, vários artistas tomavam como base o que era feito lá fora, mas depois a arte deles evoluía para algo original.

O ARTISTA

Folha Online - Você começou no skate, na música ou nas artes? Ou foi um processo simultâneo, encadeado?
Sesper - Eu não interpretava o skate como um esporte que fosse me dar dinheiro, eu andava porque eu gostava, lá no começo dos anos 80, e a música veio junto com isso por causa dos fanzines na época. Era um período que a música tinha muito mais ligação com o esporte do que atualmente. Se ouvia muito o new wave, o pós-punk. A banda [Garage Fuzz] começou em 1991 e não tínhamos pretensão de gravar discos. A gente tocava porque já éramos amigos, a maioria já teve banda no final dos anos 80. A música e o skate ajudaram o meu lance de arte quando, em 1994, eu pude fazer a capa do primeiro disco da banda, mesmo depois de ter feito algumas capinhas de demo. Em 1992, organizamos uma exposição no Teatro Municipal em Santos [litoral paulista], com cartazes de shows de bandas independentes. Então tínhamos uma correspondência com a cena. Isso tudo foi rolando, mas não era uma parada que eu ia fazer pra vida. Eu tinha amigos envolvidos com política também, no Partido Verde. Eles incentivavam a usar material reciclado para fazer fanzine, por exemplo. E com tudo isso foi se formando uma linguagem no meu trampo, com o skate e com a música, e foi aí que eu decidi fazer artes. O primeiro trampo comercial foi em 1997. Um amigo gostou do desenho e quis comprar para um shape. Ele acabou levando o desenho para o empresário de uma marca que curtiu o estilo. Nesse começo, eu enxergava tudo aquilo mais pela poesia da coisa, eu ainda não tinha tomado na cabeça com o mercado.

Folha Online - Que tipo de material você usava no começo, que linha seguia?
Sesper - Quando eu comecei a desenhar eu usava muito papelão, material que eu achava na rua e ia trazendo, suportes de madeira que estava limpa e não muito em decomposição, eu levava para casa, usava giz pastel, tinta que não fosse tão química, que fosse à base de água. Eu tinha essa preocupação porque eu produzia muito indoor, dentro do quarto, da sala, então eu não queria usar material que tivesse muito cheiro. No fim dos anos 90, eu comecei a entrar em contato com a galera do grafite, em São Paulo, e meu trampo deu uma mudada. Eu comecei a ter contato com spray, com canetas, marcadores e outras técnicas, e foi um período que deu uma estagnada na ideia. Porque que, quando eu criava mais livre, as coisas ficavam mais tradicionais. Com a galera do grafite já não, aquele lance de ir pra rua, pintar sem pincel, só com a tinta de spray e pico. Fui produzindo assim até 2004, que foi quando tudo mudou para o lance da colagem. Desde então, comecei a expor em galeria. A primeira delas foi um retrospectiva do que eu tinha feito na década de 90 até eu ter 30 anos. Foi a única vez que eu fiz isso e foi um rompimento com o passado, que era o lance muito focado na música e no skate. De 2004 para cá, eu comecei a fazer um lance mais abstrato, escolhia temas abstratos e fazia um segmento na arte mais coordenado.

Folha Online - E hoje em dia, o que mudou?
Sesper - Hoje em dia eu trabalho com material reciclado, cola branca ou cola de maizena. Aboli o lance de tinta spray. As tintas que acabo usando são sobras de tinta latex, que eu acho e guardo. Um amigo meu reformou a casa recentemente e me deu um monte de restos de tinta. Às vezes eu misturo tudo num pote só e uso corante. Faz uns dois anos que eu não gasto dinheiro com material, desde o suporte. Acho que só gasto com cola. E exponho mais em galeria. O "Re:Board" seria um processo de higiene mental dentro desse processo de criação. Meu trabalho de exposição em galeria é mais caótico, tem que viver aquele processo de ficar internado dois meses criando. E procuro fazer isso duas vezes por ano. Nesse tempo que fico produzindo, procuro fazer muita coisa e dissecar esse trabalho em vários caminhos, de acordo com a linguagem da galeria.

Folha Online - Qual sua trilha musical quando está produzindo, o que te inspira?
Sesper - Quando eu crio, eu não converso, normalmente não tem muita gente por perto. E, geralmente, fica uma música em "looping", porque tem que ter uma concentração. Eu gosto de criar com música instrumental, abstrata. Se ela tiver 15, 20 minutos é perfeita. Muito free jazz do fim dos anos 60, John Coltrane, por exemplo. Eu não gosto de criar com batida, parece que aquilo fica em um ritmo só, você começa a entrar na música e não dá. Mesmo porque a arte da colagem é um lance de possibilidades, eu nunca sei o que vai acontecer, tem muita transformação.


Saiba mais sobre a trajetória de Sesper
sesper.blogspot.com

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